BEYOND the (Fe)Male


(Vejam o último vídeo de cima para baixo, no lado esquerdo, junto com esta letra: é a música)

And SEX was always there from when I was only eight years - tempting me leave thirsty
Sweat, skin, a PULSE divine to balance this restless MIND - it seemed so wonderfully physical
Oh the BLOOD, the lust, the bodies that color the world: all drugs to die for! Won't you share my fire?
How can LOVE make that world a minefield of forbidden GROUND?
A map of untouchable skin and SILENCED desire?

And love was there in vain, PROFOUND and deep but traced with pain - too early for a child of TEN
Loving the pure and sane he sought the goddess unstained - watching them turn to flesh again
HUNGRY for both the PURITY and SIN
Life seemed to him merely like a GALLERY of how to be
And he was always much more HUMAN than he wished to be
But there is a LOGIC to his world, if they could only see

Wishing - Sickened - Ill - Ticking

SOMEONE still this hunger (it's in my blood) always growing stronger (ticking)
BUDAPEST I'm learning, Budapest you're burning me

This is not who I wanted to be, this is not what I wanted to see
She's so young so why don't I feel free now that she is here under me?

Naked - Touching - Soft - Clutching

And then after all it lead me here to wake up again
Seeking a love that might make me feel free in myself but then it proves to be
Something that hurts inside when we touch, so I move on, I lose my way
Astray I'm trying too much to feel unchained, to burn out this sense of feeling cold
And every day I seek my prey: someone to taste and to hold
I feel alive during the split second when they smile and meet my eyes
But I could cry 'cause I feel broken inside!
COME and DROWN with me- the UNDERTOW will sweep us away!
And you will see that I'm ADDICTED to my HONESTY
Trust! 'Cause after all my sense of TRUTH once brought me here
But I've LOST control and I don't know if I am true to my soul
I've lost CONTROL and I don't know if I am true to my soul
Losing control and I don't know if I am TRUE AT ALL

And we were always much more human than we wished to be...
And I remember when you said you've been UNDER him - I was suprised to feel such pain
And all those years of being faithful to YOU despite the hunger flowing through my veins
And I have always tried to calm things down - SWALLOW down swallow down
"It's just another small THORN in my crown"
But suddenly one day there was too much blood in my eyes, and I had to take this WALK down
REMEDY LANE of whens and whys...

Empty - Licking - Clean - Choking

SOMEONE still this hunger (possessing my mind) always growing stronger (craving)
BUDAPEST I'm learning, Budapest I'm burning me
This is not who I wanted to be, this is not what I wanted to see
She's so young so why I don't feel free now that she's under me?
In the morning she's going away in a Budapest taxi I've paid
Seeking freedom I touched the untouched - it's too much - I'm BEYOND THE PALE...

Prematurity is the story of both you and me, and we were always much more human than we wished to be
Prematurity is truly the story of both you and me, and we were always much more human than we wished to be
We were always much more human than we wished to be - we were always much more human than we wished to be
We will always be more human then we wish to be

WE WILL ALWAYS BE SO MUCH MORE HUMAN THAN WE WISH TO BE...

Pain of Salvation - Beyond the Pale.
(Foto:
O Filho de Plutão e a sua senhora, a ave teimosa)

C'mon , sense!




"Gradualmente foi se revelando para mim o que toda grande filosofia foi até o momento: a confissão pessoal de seu autor, uma espécie de memórias involuntárias e inadvertidas; e também se tornou claro que as intenções morais (ou imorais) de toda filosfia constituíram sempre o germe a partir do qual cresceu a planta inteira. De fato, para explicar como surgiram as mais remotas afirmações metafísicas de um filósofo é bom (e sábio) se perguntar antes de tudo: a que moral isto (ele) quer chegar? Portanto não creio que um "impulso ao conhecimento" seja o pai da filosofia, mas sim que um outro impulso, nesse ponto e em outros, tenha se utlizado do conhecimento (e do desconhecimento!) como um simples instrumento. Mas quem examinar os impulsos básicos do homem, para ver até que ponto eles aqui teriam atuado como gênios (ou demônios, ou duendes) inspiradores, descobrirá que todos eles já fizeram filosofia alguma vez - e que cada um deles bem gostaria de se apresentar como finalidade última da existência e legítimo senhor dos outros impulsos. Pois todo impulso ambiciona dominar: e portanto procura filosofar. - Entre os doutores, é certo, entre os homens verdadeiramente científicos, pode ser diferente - "melhor", se quiserem -, nesse caso pode haver realmente algo como um impulso a conhecer, algum pequeno mecanismo autônomo que, uma vez acionado, põe-se a trabalhar animadamente, sem que qualquer outro impulso tenha participação essencial. Por isso os verdadeiros "interesses" do homem douto se acham normalmente em outra parte, talvez na família, na obtenção de dinheiro ou na política; quase não faz diferença se a sua pequenina máquina é empregada nesta ou naquela área da ciência, ou que o jovem e "esperançoso"trabalhador se transforme num bom filólogo, químico ou especialista em cogumelos: - ele não é caracterizado pelo fato de se tornar isso ou aquilo. No filósofo, pelo contrário, absolutamente nada é impessoal; e particularmente a sua moral dá um decidido e decisivo testemunho de quem ele é - isto é, da hierarquia em que se dispõem os impulsos mais íntimos da sua natureza".

- Nietzsche: "Dos Prenconceitos Filosóficos"
(Foto: Mariana Messias - O Super-Conhecimento, alter-ego de Gaston Bachelard meio que de ladinho)

[Da Podolatria]



Descobri que gostava de ti
No dia que cobri o teu pé descoberto
Naquele momento de intimidade
Que me vi só eu só e teu dedão
Ponta do iceberg-sem-cutícula
De tua colossal figura

Descobri que gostava de ti
Assim, como quem descobre uma cor
E logo imagina em si, como esmalte

Descobri que gostava de ti
E fiquei ali, e naqueles longos momentos
Em alegrias de pedicure
E tive medo do frio te acordar
E denunciar a punjância
Deste amor-em-despudor
Descobrido, e por isso
Descoberto.

Descobri que gostava de ti
Mas não fui eu que descobri
Foste tu, ao mexer-te-em-cama
Não tenho culpa
Mas agradeço a bio-mecânica
Do teu bem sonhar

Descobri que gostava de ti
E te cobri, com a manta do assombro
Fiz do teu pé o segredo
Que devidamente aquecido
Florescerá em quase-Ícaro
Mito-anúncio da primavera
Última estação dos que voam contigo.

Descobri que gosto de ti.
E agora, o que faço disso?
Agora que tudo é presente
E anda descalço por aí?

Como pedaço de ti
(Não o pé, falo de mim)
Acho que não tenho muito o que fazer
A não ser aceitar este viver-entre
Como bicho-em-pé, coceira boa
Ou qualquer outra coisa
Desde que nossa.

Vamos caminhando
E apesar das unhas pretas
Testemunho dos tropeços e do passado
Tudo morre, tudo descasca, tudo se renova
E de ti, peço apenas uma coisa:

Não percas nunca
Essa tua mania
De te colocares, assim colocando-me
Em altos saltos.

Adoro!

[do arremesso]

(Foto: Minha-com-algo-dela)



Cansei de tua conversa velha, de tua mania de cidade antiga, que vive escorada em beleza de andaime e pedra amarrada.
Cansei de todo esse riso defumado em hálito fútil, desse dente amarelo exposto, monumento à costumeira trivialidade.
Cansei do perfume da tua irmã, da blusa do teu irmão, dos discos dos teus pais e do suposto eruditismo de alcova.
Cansei da tua cultura clássica dos teriaki de ontem e hoje e a sua genialidade de eterna-festinha.
Cansei de ti, e de todos os que, iguais a ti, vão pede titubante a tropeçar constantemente na mesma calçada baixa.
Cansei de toda essa tua singela balela, sutil e perigosa como a mão de Cleopatra, a desavizada furta-figos.
Cansei dos teus abraços e dos amistosos tapinhas entre adagas e beijos.

Cansei de ti, cansei
Cansei de mim, também
E de nós insatisfeito, vou procurar um outro eu
Qualquer coisa que não seja você

Alguém de gigantesco pulmão
E fôlego de mergulhador
Para que esta fadiga
Nunca mais me ataque.

Palavra de escoteiro
Que ontem mesmo vou me matricular
Em uma academia
O mais longe de casa
Para que no caminho
Eu tenha mais tempo para pensar
No caminho que tive que passar
E no tempo que estive tão
Cansado.

Palavra de escoteiro
Que amanhã eu acordo cedo
E descansado.

Adeus
Porque quem diz já-fui não deixa meio termo
Vai.

Fui.

[Do implícito.]

(Foto: Minha-do-mon-jardin)



(On s'accoutume au mal que l'on voit sans remède.)

Parecia fácil ser agredido.

(Allez, Muses, partez. Votre art m'est inutile;)

Todavia, no final, dói o não dito.

(Sur les lèvres toujours on a quelque promesse!)

Parecia fácil pular o início

(Ignorés et contents, un silence tranquille)

Todavia, no final, dói o não dito.

(Son esclave fidèle et son fidèle amant.')

Parecia fácil acorrentar o imprevisto

(Le vent a dissipés parmi de vains nuages!)

Todavia, no final, dói o não dito.

(O honte! A deux genoux j'exprimais ces alarmes;)

Parecia fácil tapar os ouvidos

(Avec de tels discours, ah! tu m'aurais fait croire)

Todavia, no final, dói o não dito.


[Impronunciável]
*******


(Parece-nos fácil...)

Non, je ne l'aime plus; un autre la possède.

(Todavia, ao final...)

Près d'elle je voulais vous avoir pour soutien.

(Parece-nos fácil...)

Et puis... Ah! laissez-moi, souvenirs ennemis,

(Todavia, ao final...)

Épiera ses désirs, ses besoins, sa pensée.


*******


(Guarda-te de mentir...)

Ou mesmo de sorrir.

(Que por agora...)

Aquela outra-hora, é tudo o que não temos

(Guarda-te de ti...)

Ou mesmo de mim.

(Que por agora...)

Tudo o que queremos, é coisa pouca, ou morta.

(Guarda-te...)

Eu cuido de me proteger.

(Que pode não ser por agora...)

Mas célere chega, em abre-porta.


*******


Guarda-te...
Eu me guardo...
Aguardemos...
o tempo...
pacientes e...
avisados...

(Que de fois je t'ai dit: 'Garde d'être inconstante,)
(Le monde entier déteste une parjure amante;)


*******

[pausa] Para além do Hip e do Hop.


Bem, a gente inteligente que eu costumo escutar não recebe com muito entusiasmo quando eu digo que gosto de Hip-Hop. Gosto mesmo. Conheço tanto a old quanto a new school: Run-DMC, passando por Poor Righteous Teachers, Public Enemy, até as porcarias modernas (raras exceções) que não cantam mais coisas como "Fight the Power", como os "rappers" da hora da MTV. Com exceção de gente como o Tupac Shakur (2pac), pouco se salva num meio, que infelizmente, responde genericamente por "música negra americana".

Michael Jackson, a promessa do pop dos 80, a nossa "Madonna", é hoje em dia motivo de piada. Temos o Jazz, o Blues, e toda uma New Orleans musical que ainda resiste bravamente. Mas tais gêneros são como a cozinha da vovó: sempre dão certo quando que se mantém a receita original. Uma Norah Jones ou Ami-Casa da Cachaça Braba que sejam têm por trás delas toda uma tradição que , por ser inesgotável, se repete sem causar tanto estranhamento. Não nego o valor dessa música, mas eu sinceramente gosto de ver o novo aparecer.

Foi aí que, numa dessas noites pelo Youtube eu encontrei esse rapaz: Tay Zonday. Quando ouvi a primeira vez, dei a atenção que todo mundo dá aos vídeos do youtube: procurei a graça ou o esquisito da coisa. Como não achei de imediato, já ia rotular de chato, quando resolvi conferir com mais cuidado, e tomei um espanto que me fez estar aqui, escrevendo. Ele é um rapaz de Minneapollis, 25 anos, que tem um Yamaha muito legal, conhecimentos musicais e um excelente gosto para a experimentação, além de uma voz DO CARALHO. Eu primeiro pensei que a voz dele fosse sintetizada, de tão absurda que é, mas depois de ir ao sitie oficial dele (http://www.tayzonday.com/) eu descobri que é coisa do capeta mesmo. Sinceramente, quem já estudou um pouco de teoria musical e lembra das aulas de solfejo, fica imaginando como devia ser divertido para ele ver a cara dos professores quando ele chegava e só mandava um "good morning sir" em terça-das-mais-menores.

Eu tentei encontrar uma definição para ele: voz de Louis Armstrong-negro-voz-tora-dos-anos 20, com o talento de experimentação do Prince, Bowie e Beck juntos e melhorados (!) e caras e bocas que o Billy Idol gostaria de fazer. Aliado a tudo isso, um conhecimento e senso crítico muito apurados, além de uma leitura pessoal interessante do "lugar do negro" não só na música atual, como na história recente dos direitos civis americanos (vejam o vídeo "Dreaming of Uhura", que além da voz de 'locutor que anuncia o fim dos tempos e te deixa calmo com isso', é muito interessante pela análise 'declamada').

Posso estar exagerando, mas é do ofício. De qualquer maneira vale a pena demais dar uma conferida em "Exploded", "Chocolate Rain", ou nas "leituras" dele, só por delírio de capela. Espero sinceramente que esse rapaz se alie com gente experiente do ramo da música alternativa boa e amplie esse dom natural que ele tem para buscar algo para além do hip-hop (Como é o caso de "Crash Into Weird") quem sabe, tirando um pouco as bundas e colares de cifras da cabeça desse povo que tanto fez pela cultura negra mundial, mas anda por demais esquecido, deixando-se levar pela mídia de massa-burra da "colored" TV norte-americana.

O Problema “Bergner-Simonds”.

(Foto: Minha-sem-mim: A caminho do saber. Paris)

Todo cientista social que um dia na vida tomou uma cerveja já esbarrou, entre copos e corpos, com alguém de área outra que, seja em tom piedoso ou sarcástico, levantou o velho-ainda presente problema da “objetividade das ciências sociais”. Para a grande maioria do respeitável público, somos os pobres indigentes da cientificidade já devidamente assentada. “A crise é nossa sina”, choraminga alguém neste momento nos portões da EHESS, enquanto ouve as palavras de conforto do seu amigo de jaleco.

Inegável que existem até hoje problemas e gaguejos quando o assunto são os “motivos” (ou diria um amante dos clássicos, o “sentido”) para a produção de conhecimento nas ciências sociais. E o cerne de toda confusão reside na dificuldade em se esperar que meia dúzia de indivíduos, que mesmo por terem meia dúzia de diplomas louváveis em meia dúzia de dignas instituições ocidentais, digam para mais de meia dúzia de bilhões de pessoas qual o motivo que pensamos tanto, ou dizendo em termos acadêmicos, qual a relação entre o pensamento humano e a existência humana. “Chamem os filósofos”, em algum momento alguém grita. Eu concordo, mas infelizmente, eles não têm linha direta, e quando apertados, costumam entrar em ano sabático.

É conosco, então, tentemos: a falta de acordo entre os teóricos parece ser uma falta de acordo entre as teorias, quando no fundo, não é. Por incrível que pareça, estamos (diriam os instrumentalistas, como Kuhn) todos inseridos no mesmo paradigma científico, buscando os mesmos dados que justifiquem os nossos modelos, etc. A crise da ciências sociais é fruto da mania de olhar sempre para o mesmo umbigo: apresentar alternativas é a pior heresia que se comete. O amigo da outra área vai me dizer que isso acontece com qualquer um-enquanto-pessoa-de-ciência. Claro! Mas nós das sociais temos maior resistência e até menor contato com “fatos” que “derrubam” visões de mundo. Na verdade, há escolas nossas para negar os fatos, para diminuí-los, para chamá-los de nomes feios e pomposos. Se alguma coisa acontece, chamam “ocorrência”. Se se repete “coincidência”, e se ela teima até não poder mais, encerram-na na categoria de “particular” e ninguém fala mais nisso. Acredite meu amigo, não existe mais espaço para nada que comece com U e termine com NIVERSAL nas ciências sociais. Novamente, alguém tente chamar os filósofos.

A raça mais injustiçada, mal copiada, mal lida e mais mal passada a limpo no planeta das idéias são os pós-modernos. Virou moda desconstruir. Ninguém sabe por que, mas é como o Raul Seixas disse “é moda, vou reclamar também”. As ciências sociais contemporâneas estão apenas passando a bola para frente. O melhor sentido é não ter sentido algum. Viva a apatia! Se isso tudo não é eufemismo para “preguiça”, eu não sei então o que se passa.

E em momentos confusos como o que vivemos, onde temos a prova de que o excesso também poluí, que todo mundo se volta para as “ciências das sociedades” com a pergunta “O que vamos fazer com tudo isso que acumulamos?”. E é em momentos confusos como este que as ciências sociais nos mostram, com um sorriso amarelo, os braços engessados. O pior é que têm gente que ainda assina em cima de toda essa incompetência.

A imobilidade se dá pelo dilema que podemos chamar “Bergner-Simonds”. Jeff Bergner dizia que a sociologia do conhecimento (a quem essas perguntas na verdade são endereçadas) “põe entre parênteses” a possibilidade do conhecer, não se envolvendo em especulações de caráter epistemológico. Assim, ela negaria o “conhecimento essencial”, ideal esse que seria excluído da busca da ciência moderna. Para esse autor, a sociologia do conhecimento ilustra a principal falha da ciência contemporânea como um todo, a dizer, a incapacidade para atingir “verdades científicas”.

Já Simonds se coloca em campo oposto. Dirá ele: “A sociologia do conhecimento tem de considerar-se não como um domínio especial ou uma subdisciplina, mas como um direito de propriedade em relação à natureza própria da ciência social” [grifos meus]. A sociologia do conhecimento desempenharia dessa forma um “papel positivo” frente às ciências (no caso, as sociais) por definir a tarefa essencialmente hermenêutica dessa disciplina.

Para um, a sociologia manifesta o “mal-estar da ciência moderna”, em sua recusa (ou abandono) do ideal de um conhecimento essencial. Já o outro coloca as ciências sociais como no centro do palco para uma melhor definição de ciência. Um ringue, dois corners, em um combate que se arrasta à muitos assaltos.

Na verdade, os autores nos apontam uma faca de dois gumes: De um lado, uma ciência que não quer produzir verdades científicas; do outro, uma ciência que se acha acima das ciências, arquimédica. A ciência que só produz condições não conclusões versus a ciência que distribui conclusões antes das premissas. Deu para entender agora porque da “crise”?

A crise é geral: repito, a ousadia do para-paradigmático não é aceitável, e esse o problema. Tudo, mas TUDO na vida precisa de um sentido, orientação, rumo, solução. Problemas, dúvidas, questionamentos são válidos como ETAPAS não como situações infindáveis. Devemos adorar o não dito, venerar o incerto enquanto momento que antecede o “salto qualitativo”. Dialética é a dúvida do estabelecido sim, mas dúvida que vira síntese.

Entre a omissão e a presunção não existe meio termo, mas retorno. Então, não tem outra alternativa: temos que colocar DE UMA VEZ a pá de cal sobre as velhas pregações de academia. Acho que podemos começar questionando os “valores do mundo”. Eu acredito (com Weber, Smith até), que tudo passa pelos valores. Se enxergarmos valores que nos levem rumo a portos-mais-seguros, devemos lutar por eles. Isso sim a nova U-topia: estar “sob o solo” (utopoi), e não “sem chão” (atopoi). Ergue-nos por sobre todo esse amontoado de palavras velhas e procuramos acordos, porque afinal, o mundo vai sobrar para nós, a encrenca já é nossa. Se queremos uma certeza para começar, temos uma: os velhos morrem.

Questionar os valores para questionar o porque produzimos não conhecimento só, mas a vida como um todo. Questionar o que estamos fazendo de tudo que nos cerca e não somente como nos acercamos de tudo. Acho que uma coisa eu concordo com os realistas: o mundo existe independente das teorias que temos sobre eles. Adaptando um pouco isso, eu diria que os problemas continuam a existir até que nos ocupemos de verdade deles.

Por enquanto é isso, e o contrário disso é a crise, no meu ver. Há quem goste delas, mas eu, como já disse antes, penso diferente: continuo a gostar da periferia e da calma que ela me traz.

Nossa Dívida para com o Selvagem.



"Vivemos sobre os alicerces construídos pelas gerações anteriores e só muito vagamente podemos compreender os penosos e prolongados esforços que custou à humanidade atingir o ponto, não muito elevado afinal de contas, a que chegamos. (...). O volume de conhecimentos novos que uma época ou certamente que um homem podem acrescentar ao fundo comum é pequeno, e seria estupidez ou desonestidade, além de ingratidão, ignorar o todo, valorizando apenas a pequena contribuição que pode ter sido nosso privilégio trazer. (...). Desprezo e ridículo, ou aversão e denúncia, são, com demasiada freqüência, o único reconhecimento concedido ao selvagem e ao seu modo de ser. Não obstante, entre os benfeitores que estamos prontos a louvar agradecidos, muitos, talvez a maioria, foram selvagens. Pois, feitas as contas, nossas semelhanças com o selvagem ainda são mais numerosas do que as nossas diferenças. (...) A reflexão e a pesquisa nos devem demonstrar que temos, para com os nossos predecessores, uma dívida em relação a muita coisa que consideramos como nossa, e que seus erros não eram extravagâncias intencionais ou delírios de insanidade, mas simplesmente hipóteses, que, como tais, se justificavam na época em que foram propostas (...). Afinal de contas, o que chamamos de verdade é apenas a hipótese que se supões funcionar melhor. Portanto, ao exarminarmos as opiniões e práticas de épocas e raças mais rudes, bem faríamos em olhar com tolerância (...) e em conceder-lhes o benefício (...) de que nós mesmos talvez necessitemos algum dia: cum excusatione itaque veteres audiendi sunt. [1]"

- Frazer: O Ramo de Ouro.
(Foto: Minha/ pata da "Preta": esfinge que ladra e morde.)

1 - "Com a mesma indulgência os antigos devem ser ouvidos".

[pausa] Idéias em si.



"Dispenso-a de comparecer na minha idéia de si".
-
Pessoa.
(Foto: Minha-comigo-nela/Chamonix-FR)

Sabe, chegamos àquele lugar onde o silêncio é esquina de mais nada. Ficamos tanto tempo afirmando rotinas e traçando roteiros que não sobrou mais espaço no papel para o improviso. Tinta de caneta, certeza fácil: rua do cansaço, sem número. Sequer me importo de dormir na calçada.

A roleta do cassino de tudo que se passou não traz vencedores: nenhum número coincide com as apostas. Que arrogância isso de achar que está tudo aí, sob as vistas. Que infantilidade isso de querer fechar o livro da vida com promessas. O infinito não cabe nem é circunferência de dedo algum. Na verdade, as mãos devem estar limpas quando se lançam os dados.

"Para sempre" muitas vezes é desculpa de "não consigo". Se este é o exato momento de toda minha vida, eu juro que não entendo essa mania de não-agora: antes fosse ou melhor depois? Bah! Tem gente que brinca com o sério. Cada segundo é uma pergunta. Tic-da batida-tac do melhor a ser feito. Mas não, todo mundo é físico quântico. O tempo virou uma dimensão qualquer, quarta-outra que seja, abrigo da mediocridade. Todavia, vivemos em três e morremos em dois planos: antes em pé do que mal deitado. Este o mais científico de todos os fatos.

Então, no meu hoje em dia não há muito espaço para pretensões. Cada dia que passa eu imagino que diminuis tuas convicções de ontem e te largas em mania de asteróide: ironia, já que o planeta-em-dúvida devia ser eu, o para lá de urano. Todavia, sigo em órbita teimosa, apesar de último, e por mais que a sabedoria atualizadíssima insista em me desqualificar, digo que não me importo: sou qualquer coisa melhor do que "pedra gelada". O resto daquilo que me é predicado deixo para a polêmica da boca-miúda.

Quietismo estético, porque eu realmente não tenho nada a dizer. O que digo, digo para ouvido mouco, outro que não sabe dos bois, quanto mais de nomes. A si, deixo o direito de não comparecer. Na verdade, nova ironia, porque nunca precisamos de tais expedientes: desde que o fim começou, tiraste férias de qualquer extrema unção. Fiquei como no conto do alemão-louco: a carregar cadáver. O pior de tudo estava por mim.

Mas isso é o que se fez daquilo que não se sabe o que era para ter sido. Ou seja, está na categoria do "foi-se". Se te cedi direito, exigi de mim dever: arremessar-me para além de antanho. É... digamos que prefiro mais um "para agora" do que um "para sempre" nos dias que me seguem.

Era isso. Acho que cheguei naquele lugar onde a minha vida é cruzamento com a enorme vontade do melhor. Aprendi a conviver só com o curto-médio em prazo. Longo só os desejos, e esses, diz filosofia antiga, são a causa de todo o sofrimento.

Finalizo tranqüilamente dispensando-me de comparecer também em qualquer idéia de si. Prefiro a calma da periferia.

Aquele abraço.

Além-aquém-daqui.

[Em março de 2007, uma pesquisa de mestrado foi a minha chance de dar o troco, e o vento me levou para o litoral-de-lá, onde tudo, dizem, começou: resolvi conferir meu título de cidadão tardio da velha senhora. As experiências são inúmeras, e eu posso dizer que 4 meses e meio mudaram-me completamente. Por enquanto, vou falar das cidades, já que é esse o nosso tema: verticalidade, locus e gente na calçada. Depois, as sentimentalidades de chão mais duro]


"as construções atuais refletem, fielmente, em sua grande maioria, essa
completa falta de rumo, de raízes... cujo único interesse é documentar,
objetivamente, o incrível grau de imbecilidade a que chegamos, porque, ao lado dela existe, já perfeitamente constituída em seus
elementos fundamentais, (...), toda uma técnica construtiva,
paradoxalmente ainda à espera da sociedade à qual, logicamente,
deverá pertencer".
- Lúcio Costa: Razões da nova arquitetura.
(Foto: Minha; Restauradores/Lisboa)


Primeira Parada: O País-Nariz.

Olha, não é que Lisboa seja chata. Não é isso. Apenas há lá um consenso que o Tejo é via de mão única. Restelo -» Mundo. O inverso só a passeio.

Por isso, sugiro: toda a vez que ouvirem “Portugal”, pensem neste singelo país do tamanho da população de São Paulo e… excluam Lisboa. A pior coisa que pode acontecer para qualquer brasileiro que lá chega com um pingo daquela sensação “vou lá encontrar meus camaradas” ou “sabia que meu avô era português?” é pegar o vôo direto da TAP para a capital do país-nariz de Cabral, aquele ibérico do caraças! Entretanto, se o que te preenche o coração é o sentimento de “sacanagem, eles amansaram as índias antes de mim”, ah, então venha mesmo, e venha a nado se o avião atrasar! Lá é o local perfeito para si! O rico, a feia, o quase bonito, todo mundo tem nada para dizer para você, nem você para elas. Mas antes, apelo para a tua cordialidade natural de bom selvagem: deixemos o esplendor e o silêncio da gente do centro. Garanto que o Tejo é o “mais pequeno” dos lugares do Brasil.

Sim camarada, teu avô não era lisboeta. Digo-te: de todas as pessoas que, ao conversar comigo, conseguiram a proeza de manter a relação “sorriso-frase” com frequência, numa conversa educada, 99.9% delas eram do além-aquém-daqui. Claro, sempre há margem para a surpresa. Mas como sou afeito a exatidões, digo que o 0,01% que falta da minha conversa era um loirinho muito simpático que me abraçou quando me viu com a camisa do Sporting. E isso dentro de um bar brasileiro, o que compromete minha amostragem: ele estaria sendo mais esperto do que legal, ou bêbado?

Eu sei que pareço o primo mal amado neste romance que o Eça e o Camilo ainda estão por escrever, ou que parei antes de 22. Aceito vossa reprimenda. Todavia, explore um outro concelho: Porto, Coimbra, Évora, algum lugar no Algarve, algum lugar no norte, algum lugar português! Chegue de avião, que é o jeito, mas alugue um carro. Bartolomeu Bueno da Silva faria o mesmo.

Arte & Política



“(...) formas que não se apoiassem no chão, rígidas e estáticas, (...) mas que mantivessem os palácios como que suspensos, leves e brancos, nas noites sem fim do planalto.

Formas de surpresa e emoção que, principalmente, alheassem o visitante por instantes que fossem dos problemas difíceis, às vezes invencíveis, que a vida a todos oferece”.

- Oscar Niemeyer – “Forma e função na arquitetura”.

(Foto: Minha)


Brasília é, como tantas cidades do mundo, dona de vários adjetivos: é a cidade planejada, cidade mística, cidade linda. É cidade modelo, cidade de curvas, centro do poder e da (des)política. Cidade palco, cidade refém dos carros e do avanço desordenado. Cidade que rompeu as amarras e os traços no papel: a cidade discursiva. Trajetos, descaminhos e atalhos no desenho ufanista do modernismo apressado que quis colonizar o solo do planalto central. Resposta à prancheta, a resistência do concreto (e também do vidro) da capital do país aos seus desenhistas e planejadores. Cidade rebelde: filha de pais enamorados pelos ideais comunistas e socialistas, a cidade capital da vida do país é atualmente o reverso do sonho. Brasília é, como tantas cidades do mundo, reflexo de dinâmicas humanas, do dialogismo, da dialética das interações entre os espaços e quem realmente de fato se ocupa deles. Brasília queria ser o plano piloto somente. Brasília queria ser a cidade para os do dinheiro. Brasília não vê beleza na pobreza, e se desvia dela na próxima “tesourinha”. Entretanto, existem aqueles que não concordam com Brasília.

Esses, os pobres. Gente em buracos. Gente em carroças cheias de latinha, o cavalo manco, lento. Atrás, o carro apressado. Cidade de carros. Gente? Nunca vi. Só em livros.

Asfalto e concreto. Brasília foi projetada contra a pobreza. Brasília versus Brasil. O viaduto tem calçada curta, que não cabe o corpo. Parada de ônibus de ferro, que o concreto já ficou mole, diferente do coração de quem não se transporta. Ruas, ruas, largas, amplas. Quilômetros de ruas sem um teto. Arborizada, é verdade, mas para passarinho ver. Nada de esquinas, nada de cortes. Tudo limpo, na verdade, tudo às vistas. Uma vez ouvi um dos amigos do niemeyer dizer "os espaços vazios são também decorativos", bem, aqui eles servem bem à estética clínica da cidade vitrine: o farol vermelho-azul vê longe, e encostar-se é o crime. Negro de havaiana em shopping, nunca, nem no natal. Ah sim, muitos shoppings, que esse calor tá de matar não é mesmo?

Todo mundo aqui é europeu. Classe média ALTA, fazendo o favor! Só vou expulsar o reitor quando aparecer no horário nobre, que é a hora que minha mãe está em casa para gravar. Satélites? Disse bem: "AO REDOR", que é para onde exilamos todos os sócrates desdentados, descalçados e desqualquercoisas que não combine com o glamour do novo-piche.

A subversão, a negação que a capital do país aparenta ao seu plano original foi construindo-se por demanda das dinâmicas que estavam além (aquém?) das utopias: cidade centro do poder. Brasília precisava parecer limpa, “branca”, e para isso, desviou do seu centro o roto, o maltrapilho, o sujo. Brasília era um sonho e devia continuar a parecer um sonho. Todavia, a cidade encontrou outras maneiras de aparecer: a pobreza presente, hora camuflada, hora frente aos olhos, incômoda. Luta entre a realidade de um país subdesenvolvido e os jeitinhos tentados para “alhear o visitante”: o Brasil se inseriu em Brasília. Brasília versus o humano, o brasileiro em Brasília. E agora, com licença, que tenho que ligar o ar condicionado.