Oh! teaser love



as coisas acabam, acabam sim. acabam desse acabar de busy call, modo silencioso, de te evitar na festchinha, de conversar com tua amiga mas não contigo. acabam de tomar pílula de invisibilidade, de andar de moonwalker pela madrugada afora, rewind no pneu do teu carro, criando descaminho e descabido, e por mais que tu fiques moooooorta de indignada... acaba filha, acaba desse acabar.

o mérito não é só teu. é teu e do teu jeito, e do meu também que não tem nada a ver com o teu. coisa da crença e a boa vontade que nasce dessa crença, que é fruto da teimosia de quem tem berço, pai e mãe bem casado, filhos criados, boa nota na escola: ahhh, o que seria do livro de cabeceira se não existisse um tanto de romantismo no mundo? se a vida é espada, é pena também, e a sentença do desaviso é essa raivinha boba e injustificada de eterna adolescência. e contra isso, só o remédio amargo de ficar nua na frente do espelho e chorar aquele choro que só vem quando a raiva passa e a saudade chega e tu te recordas como era bom ter alguém com quem ser infantil e tola: o sofá vazio não reclama de ti quando você muda de canal.

mil coisas devem passar pela tua cabeça todos os dias, e para todas elas tu tens a resposta de ficar de bico. o lance é que, de longe ou de perto, eu não ligo! esse número já foi bem ensaiado por gente antes de ti, e eu mesmo fiz o favor de ser palhaço no picadeiro das coisas que me competem, quando devia ter tido a dignidade de dizer "já vou tarde". eu tinha essa mania de me achar guerreiro quando era apenas um desses cachorros pequeninos que acham que cravar o canino em algo lhe dá direito eterno de posse e usufruto. com o tempo meus outros dentes cresceram, e também caíram, e assim roer osso deixou de ser um esporte, e se tornou ocasião.

por isso eu largo tua canela, e no lugar dela me dou o mundo. eu abro a janela e vejo aquela bola laranja no céu (G, na música) que religiosamente se coloca sobre a minha cabeça e me queima o que resta das teimosias de antanho, tu inclusa. e ao dizer tudo isso, espero que você experimente a satisfação de ter estado certa o tempo todo: ao final, o teu pessimismo, desconfiança et caetearas congêneres são os vencedores. e como vencedora e mulher independente que é (sempre foi, lembra-me uma das vozes que andam pela tua casa) agora és duplamente livre, porque não me tens mais a arranhar o canto dos teus (i)móveis, nem a roer de criticismo os teus sapatos, ou melhor, teus tênis, aos quais jurei perseguir eternamente.

ao fim, quero que saiba que não digo tudo isso por raiva de ti, nem que eu ando por aí te evitando porque tenho 18 anos. não, na verdade eu experimento uma gastura de tudo que houve, do acontecido, sucedido, e também do não dito, omitido e mal falado. não tenho nada contra tua pessoa, mas de chatice já basta a que eu me auto-imponho todos os dias, no exercício de ser eu mesmo. não quero ser cruel também, mas a licença que tenho da poesia me dá essa liberdade de escrever só para que tu entendas: para o resto do mundo, tu não passas de lirismo. fique tranquila.

um recado? claro! e um obrigado também! obrigado por me mostrar o tanto de coisa errada que tenho que consertar comigo ainda, o tanto que eu posso me violentar me colocando em situações que claramente estão contra mim desde a segunda hora (a primeira, tu o sabes, tenho nada o que reclamar!) obrigado por ter despertado em mim um senso de dignidade e a calma de saber que a pessoa certa para a gente é a pessoa que reflete o momento que vivemos. por isso, mea culpa também querida: tudo que eu disse acima para ti, se aplica para mim, porque tu estavas ali apenas refletindo os raios que emanam do prisma que eu descolori por cinismo e falta de fé em mim mesmo.

agora eu corro de você, e você, claro, corre de mim. eu não estou em nenhum tipo de jogo contigo, eu apenas estou tomando um rumo diferente para mim, minha vida. daqui a pouco você me esquece para sempre, e no futuro eu vou ser apenas um daqueles carinhas que se fala mal pro então-amor. eu estou em paz com isso, e fique à vontade para confidenciar as minúsculas parcelas daquilo que me torna enormemente pequeno. mas fique fria que da minha parte eu só carrego o que de grande você me trouxe, porque eu posso estar sendo grosseiramente sincero agora, mas não sou ingrato.

fique bem, que ao contrário dessa música que triste ou acertadamente foi nomeada como "nossa", nenhuma lágrima você me fez derramar, pelo contrário, guardo com muito carinho as gargalhadas sonoras que dei contigo. anos e anos que eu não me divertia e RIA com uma mulher assim (como você)....

but i'm sorry, i don't pray that way

Not (ever) to be (next)



Naked as sin
an army towel, covering my belly
Some of us weep, some of us howl
Knees turn to jelly
But Next! Next!
I was just a child
A hundred like me
I followed a naked body
a naked body followed me
Next! Next!
I was just a child when my innocence was lost
in a mobile army whorehouse
a gift of the army, free of cost
Next! Next! Next!
Me, I really would have liked a little bit of tenderness
Maybe a word, maybe a smile, maybe some happiness
But Next! Next!
Oh it was not so tragic
and heaven did not fall
But how much at that time
I hated being there at all
Next! Next!
I still recall the brothel trucks, the flying flags
The queer lieutenant slapped our arses
thinking we were fags
Next! Next! Next!

I swear on the wet head
of my first case of gonorrhea
It is his ugly voice that I forever fear
Next! Next!
A voice that stinks of whiskey
of corpses and of mud
The voice of nations
the thick voice of blood
Next! Next!
Since then each woman I have taken into bed
they seem to lie in my arms
and they whisper in my head
Next! Next!

All the naked and the dead
could hold each other's hands
as they watch me dream at night
in a dream that nobody understands
and though I am not dreaming in a voice
grown dry and hollow
I stand on endless naked lines of the following and the followed
Next! Next!

One day I'll cut my legs off
I'll burn myself alive
I'll do anything to get out of life to survive
not ever to be next
Next! Next!
not ever
to be next, not ever...................

pétala (com acento)



somewhere i have never traveled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands



e.e.cummings (via mari messias)

Leocádia




esta noite eu viajo
por longos e infidáveis caminhos
por infinitos de anos e vidas, esta noite
eu viajo

eu abro o peito e dele brota uma lua
meio minguante, meio cega
como o sorriso triste e resignado
da amante velha do jovem moço
que sabe que tudo nela é passageiro
o carinho, o toque... um beijo
tem o sabor rançoso de uma porta fechada
ou de uma saia que não mais lhe cabe

eu abro a mão
e do dedo cai uma direção
uma gota de pele na calçada que me cobre
a timidez do pé descalço
a unha bem feita pela boca nervosa
linhas de uma vida na palma
coqueiros da praia silenciosa
falanges ausentes e trêmulas
decepadas pela lâmina cega
dos séculos de reclusão e egoísmo

eu viajo esta noite, como
ontem eu também viajei e
amanhã vai ser um outro lugar
porque estar longe é que me faz
suportar estar perto

eu passo esse tempo todo
andando para não ter que falar
pois falando sei que paro e aí
eu vejo, como já vi
esse teu reflexo de miragem e
maldição, a cobrir qualquer sol escuro
como cinza de um vulcão
que se recusa a parar de vomitar
diariamente, as verdades quentes
de hoje e sempre

quando eu me deito na cama
é porque estou cansado
e ali deitado eu sou testemunha
de um outro casal, e meu prazer
é o prazer secreto dos que
fazem da fé mútua dos outros
uma tábua de salvação

e nessas horas eu penso que tu pensas
que eu tenho raiva de ti, que tens raiva
de mim, penso no tanto que pensamos
e ainda pensamos, e fizemos e ainda
fazemos, mesmo sem o querer, ou
quando queremos, é um ato tão secreto
quanto a nossa melhor lembrança

cada dia que eu vivo
cada corpo que eu me esquivo
ou que não evito
faz crescer em mim o desejo
mais que forte, sincero
de te dizer o que todo mundo
quer ouvir: a certeza,
não que isso te isente de
determinadas coisas tuas
para comigo, mas de mim para
ti, o compromisso é de te dar
os parabéns por toda essa
beleza cultuada, marcada
na pele, tua, minha, em
suor, lágrima e outras secreções.

Não há nada mais difícil hoje
Do que a simplicidade do afeto
dado e recebido, sem as conjecturas
dos atropelos e perguntas
descabidas. Isso não há, e quando
eu lembro de quantas vezes tua
insegurança me fazia repetir
mil vezes mil o que eu sentia por ti,
eu hoje olho pra mim e vejo que
cada gesto de amor que em ti
escrevi, fez por mim mais do que
todo desacreditar poderia me furtar.

Eu só posso te abençoar
como te abençoaria
o dia curto de uma noite
de janeiro, mais ao norte.

É doído lembrar, mas toda essa dor
é apanágio vivo da tua vitória
e por mais que eu sinta raiva de ti -
e sinto - não tenho como não
reconhecer, que ao fim, magia tua
ou não, eu me transformei algo
melhor que sapo, apesar de não-príncipe,
de teimoso que sou.

Por isso que hoje
eu navego pelas águas turvas
de dias negros, mas tenho como
semblante, a serenidade do porto de
ontem, das risadas do mercado,
as crianças que se atropelavam,
das frutas que rolavam pelo chão
de terra pisada, como sonhos destruídos
que se racham para da casca dura
escorrer uma seiva, e nela
a infinitude de tuas sementes-gestos,
coração em broto de amanhã melhor.

Eu me recuso a te oferecer
qualquer coisa em holocausto
eu me recuso a reconhecer miletantas
coisas, eu me recuso e na minha
recusa está contido o que me há de pior,
logo-lôdo, parte menor e grande
de tudo que sou feito:

Mas quando for amanhã, e
já não for mais janeiro, o calor
vai nos fazer abrir a janela.

Eu vou te dizer: senhora... obrigado,
hoje não digo nada disso, e
contento-me em lamber-me
as partes menos íntimas, que
morro de medo de qualquer exposição.

Entretanto, entre os inúmeros nãos
fica um, o de não me entregar e
não desistir, de lutar e aguentar
e suportar e engolir, lamber o copo
de fel, abraçar a mão da adaga,
beijar a língua ferina, massagear o
coração invisível, e tudo isso faço
como herdeiro do imenso campo
dos girassóis negros - nós dois -
faço como lembrança,
ou castigo...

Espero o dia de entregar este
mesmo campo, renovado em
cultura e lembranças, e então aí
vou deitar, e descansar até que
algum outro uivo, ou uma lua,
despertem-me do meu sono
de gente, e me façam acordar
para o dia dos bichos...



tranquilitudelessness



a moda agora é a de pedir aquilo que não se quer dar. os novos mendigos estão todos ricos e lambem as feridas uns dos outros num imenso ritual antropológico de auto-comiseração erótica.

perde-se a noção do simples, e no lugar dele se implanta uma nostalgia não assumida de que a era dourada do relacionar-se passou. o cinismo é a tônica, o falso dar de ombros, o não é comigo, o estou aqui a passeio. quando não é isso, é o desespero, o querer logo pra agora, o qualquer coisa está valendo, a total falta de senso crítico e amor próprio.

o cenário é dessas savanas africanas, com a diferença que se quer ser gazela quando na verdade se está mais pra gnu com a pata presa na beira do rio sem crocodilo: todo mundo se acha em constante ameaça de um mal imaginário, e as mais tresloucadas posturas defensivas (paranóicas) são colocadas em cena. com isso, os bichos pularam para nossa frente na escala das coisas que vivem, porque enquanto ficamos com medo do que poderia vir a acontecer, eles pelo menos fazem da tentativa/erro sua lógica de vida.

é por essas e outras que toda essa conversa sartriana de cabo da boa esperança não me convence. não acho que o remédio para os vinte anos seja fazer trinta. acho que o que mais há aí é o exagero na dose de remédio, tranquilizante pra cavalo no lombo de gente: contra o frenético, a apatia.

que a poesia me perdoe, mas eu não acredito na tranquilidade. sim, não acredito que tudo se dissolve em um súbita epifania, que mais parece outra dessa heranças malditas do Disney. claro que há o revéz disso, da pornografia como modus operandis de toda forma de se relacionar, que é o outro exagero, mas você se engana se eu acho que a solução está num príncipe com a camisa aberta mostrando o peito cabeludo, ou uma princesa de cinta-liga.

não. a pior desgraça para uma caravela, tanto quanto o mar revolto de corpos, é a ausência do vento, ou de beijo. eu nunca vou conseguir me comportar, minha senhora. eu vou ser sempre apaixonado, por tudo que faço, por todos que toco. não vejo porque deixar de ser assim. não, eu não quero essa sorte de me tornar maduro, ou seja lá qual o nome que você dá para esse amor de persiana fechada e gemido abafado: gostar para mim é compartilhar. eu não tenho medo de errar, de me machucar, até porque é fácil disso acontecer. o que já me assustou de verdade foi acertar, porque ninguém sabe o que fazer quando acerta, tão acostumados estamos a esperar e querer o pior. ninguém acredita que está certo, e o mais grave, não acreditamos que alguém esteja realmente disposto a procurar o centro daquilo que nos move.

talvez eu seja um mentiroso, e no fim das contas, tudo isso que digo é o jeito que arrumei de ser tranquilo. é como acordar todo dia cedo e sentar na beira do mar e começar a não se incomodar com o mar que arrebenta na pedra e te respinga sal na língua. vai ver é isso mesmo, de se apaixonar pelo caótico, de abraçar o incerto, de flertar com o perigo, namorar com o inesperado. de sair de mão dada com o que ninguém imaginou pra ti, e ao final ser feliz, mas não como nos contos de fada: depois do "fim" fica ainda muito pano pra manga.

eu sou feliz como sou, e melhor ainda, faço feliz sendo como sou. todo meu combustível vem do sorriso que arranco, do espinho que tiro, do abraço que dou, do beijo que roubo, do carinho noturno. eu não vou mudar, não vou me tornar alguém melhor, pelo contrário, a previsão é me tornar cada vez mais assim como já sou, até conseguir gravar na pedra do coração de quem amo esse jeito pagão de cultuar deuses antigos, inquietos, humanos....

"Um quietismo estético da vida, pelo qual consigamos
que os insultos e as humilhações, que a vida e os viventes
nos infligem, não cheguem a mais que a uma periferia
desprezível da sensibilidade, ao recinto externo
da alma consciente.

Todos temos por onde sermos desprezíveis.
Cada um de nós traz consigo um crime feito
ou o crime que a alma lhe pede para fazer."
- Fernando

Ouro de Tolo



não, eu não tenho nenhuma tristeza para esfregar na tua cara, nem mesmo vim aqui hoje bater na tua porta, porque a rua é larga e é do meu direito andar por ela, mesmo naquelas noites que o quarto tá quente mas a noite tá fria e você vai pra janela pensar em qualquer coisa que parece comigo mas não é bem eu-mesmo, e isso te deixa contente, porque é bom ter uma mentirinha que ajude a dormir.

eu não vou pedir licença, se o meu nome está na placa. nem vou ficar em casa quando estou vestindo roupa nova e um sorriso que há muito se resignou com o que há. você não é a primeira, e mesmo que fosse a última, ia tropeçar na minha gratidão, porque acabaria por me tirar do peito a dúvida, e ia me devolver de onde vim e para onde quero voltar tão logo pare de estar certo quando tudo que quero é o prazer de ser o último da classe.

é complicado caminhar por sobre a expectativa alheia, sobre olhares desta côrte chinesa que sempre espera de sua majestade um gesto soberano de condenação abrupta, dessas que se guarda na manga da roupa e que devolve o sorriso ao sádico. eu não tenho nada disso, eu não tenho um não, nem um sim, nem mesmo quero estar no meio, como uma espada embanhada. talvez te espante tudo isso, talvez te fruste, eu não sei, sinceramente não sei. eu não passo meus dias procurando atalhos para evitar a grama do que já foi um quintal, mas também não vou caminhar por sobre os móveis dessa sala, muito menos tirar a poeira das porcelanas que com tanto esmero você acumulou.

eu realmente não passo meus dias pensando no que vou dizer quando quero dizer aquilo que queria dizer. eu não gasto minhas horas costurando pensamentos em algum poema antigo, ou dedilho meu violão a dor fabricada do que nada mais foi que um gesto de coragem, do qual me orgulho e muito. cada visita que eu faço no espelho é para constatar que perdi um ano, e que possivelmente serei enterrado num desses caixões que não marcam os ombros nem pesam nos braços de quem o carrega. e quando esse dia vier, possivelmente ninguém que seja você vai saber, ou lembrar, ou se perguntar. você estará em outro país, em outro abraço, em outro quarto... este destrancado (espero eu), com uma janela virada para o infinito e a porta aberta como um olho egípcio, encarando com volúpia um corpo que te quer muito bem.

a única coisa que me dói, se eu posso me permitir este imenso luxo, é ver que tudo que eu disse é marca de dedão na areia, coisa que o mar apaga no primeiro desligar da luz, ou do sol. é de notar no parco noticiário que o vento sopra na minha porta o atavismo da mania de querer ser pior pelo prazer de se ver na pior. às vezes meu orgulho me diz que com isso você quer chamar minha atenção, como quem grita para um garoto de recados as compras por fazer, delegando aos outros aquilo que é responsabilidade tua, a dona da casa. desculpe a crueza desta carne exposta, mas com isso tudo a única coisa que você ganha é a certeza de construir tuas próprias dores, com as quais não compactuo. de longe, eu me compadeço, e de longe vou continuar assistindo a tudo isso, porque cada lâmina que tu cravas em teu próprio peito é um cabo a mais que me impede de te dar aquele abraço, aquele que tu queres tanto.

não preciso te lembrar do óbvio, nem mesmo te dizer que não guardo de ti aquilo que sei que não merece ser guardado. sou um menino crescidinho, isso acredito que tenha certeza. nem perca seu tempo imaginando o que me vai por dentro, porque eu tento ser como filho de plutão e me abraçar à órbita silenciosa como quem abraça um novo credo. sou fervoroso devoto da palavra não dita, e mais do que mania da pedra gelada, isso tudo não passa do profundo respeito que tenho pelo direito das pessoas de serem o que elas querem ser, como elas querem ser, e quando elas assim entendem.

então, como último exercício, ao ler isto tudo, pense que não estou falando de você, porque essa é uma certeza que você não tem. se quer um outro desses meus conselhos, exercite a humildade de se achar especial do jeito certo, do jeito que foi, é, e sempre vai ser, mas não se considere imprescindível. e quando aqui chegar não pense "ora mas veja você, que impertinente!" ou "céus, ele de mim fala!". não, porque cada linha do que aqui está na verdade é a teimosia do que se espremeu entre os dedos e caiu na tela. eu não estou falando de você, porque não sou eu quem escrevo. sou um desses heterônimos que escorrem da mão e caem no papel. de qualquer maneira, fica o recado (dele ou de mim dado), ou não.

final um tanto budista: um texto em que disse tantas coisas para no final pedir que tudo seja nada. sim, é isso mesmo que eu queria. dificilmente eu explico as coisas aqui, mas para ficar bem claro: por isso "Ouro de Tolo", porque nem tudo que brilha se deve levar à boca para tampar o buraco do dente. todas estas letras juntas são para pedir que você respeite em si um pouco o direito de não ter nada, de não ser nada, e de viver o positivo disso. alegria muitas vezes nada mais é que a confusão do barulho, já a felicidade é tijolo na parede.

materialismo-dialético



















sabe, muita coisa que me incomodava já não tem mais aquela força de outrora-bem-que-te-disse, que me queimava a cabeça e soprava no meus tímpanos um sinistro chamado de bem-feito-você-foi-avisado. aquela culpa que me fechava as veias e me impedia de sangrar a sangria do desatino compartilhado também ela se diluiu no copo dos tempos que bebi. é: eu não tenho mais nenhuma grande dor que eu possa usar como espada fresca a me cortar os membros que querem andar. o meu olho esquerdo secou, e o direito também já não faz água.

lá no fundo do teatro alguém seria capaz de ouvir o estampido seco de duas mãos se encontrando e o grito entusiástico ou embriagado de um ouvinte, desses que chegam no meio da cena e gritam um incentivo como que para conseguir a simpatia de quem avizinha o atraso. quem chega no meio da correria pergunta pro do lado: amigo, quem ganha? e recebe uma resposta meio que de pipoca, meio que de coca, e se senta sem mais nada a perguntar. quem canta a letra pela metade runrunruna um improviso só para não passar vergonha, sem compromisso algum com as horas que o artista perdeu emendando uma letra na outra.

teve um tempo que me irritava isso, porque eu ainda me sentia um prometeu da nuvem furtado, estalando em curto circuito e achando que tava cuspindo raio. irritava e por anos eu passei irritado com tudo e com todos porque eu me achava tão cheio de problemas, e o problema do mundo era que eu tinha um problema, logo o mundo devia girar um jeito de orbitar para poder satisfazer meus caprichos de tadinho dele furou o dedinho.

hoje em dia não é assim, mas ainda tenho uma certa sensação residual desse tudo que passou. eu já não choro ela, florisbela, mas dela ficou uma idéia, e talvez seja ela (a idéia) o último desafio que ela (florisbela) te deixa quando vai: ela foi, mas ela fica.

sim, você imaginava ela de mil jeitos e todos os dias acordava dizendo para si o quanto era feliz. tinha ela e ela é tudo ela quer ser tudo ela se faz de tudo e se veste de todas as cores porque você usa um desses óculos da cor-do-arco-íris que te faz ver tudo assim newtonjorgebenjoriamente maravilha: você está apaixonado, ela também, e o mundo no dos outros é refresco, ema ema ema.

e aí, acabou. o espelho quebrou, e depois que você pára de recolher caquinho pra cortar os pulso, e supera a fase dos "por queeeeee" entra em vórtice que te suga pro resto da vida, se não tomar cuidado: do por que meu pai? você transforma florisbela em Amélia, a única mulher de verdade.

a partir daí, toda a tua vida parece uma eterna corrida na qual você está irremediavelmente fadado a chegar sempre em segundo lugar: não importa qual caminho tome, sua forma física, cardio trainning, tênis, ou grossura das coxas. nunca nada vai ser bom, nunca ninguém vai ser bom, nunca, porque o teu primeiro prêmio o insensato destino te tirou, tadinho de ti. você meio que entra num modo automático, e sobrevive: a vida é uma merda mesmo, mas vamos ficando por aí que morrer pode ser uma encrenca maior do que estar vivo.

corredor + juiz + carceireiro = você. quando te falam de agora-Amélia, você romanamente bate no peito e chama pra si Marco Aurélio: mea maxima culpa. dedo em riste, sempre pra baixo. ela? ela nunca fez nada de errado! ela nunca faria nada de errado! ela é uma santa, dessas que se pinta no teto da igreja pra ficar bem longe de mão boba. só que toda mulher usa calcinha, e até onde eu sei, a função maior de qualquer roupa íntima é esconder o delito.

e assim você vai passar a vida toda, se não deixar esse pseudo-altruísmo de lado e apontar o dedo pra ela sim: sim, ela errou! sim, ela te sufocou, ela não te respeitou, ela pirou em coisa simples, ela viu coisa onde não existia, ela te pediu o que tu não querias dar, ela tentou te fazer ser alguém que era alguém que não era você. em suma, ela é humana! (pasme). não, não estou te dizendo para agora trocar o chororô pelo "eu te odeeeeeio!" que aí é trocar uma criança pela outra. digo apenas que o adjetivo "perfeito" não se aplica a humanos, e o engodo disso chama-se "idealização".

a última etapa é a de superar a idéia que você tinha de alguém e colocar ela no mundo dos homens, pra jogo mesmo: quem tiver a mão maior, vai levar papai, não tem jeito. aproveita e mata essa idéia que tu tens de ti enquanto idéia que ela tinha de ti: sim, seja tu mesmo e arque com isso. tá certo que tu não és nenhuma marvilha, mas eu te garanto que no mercado das gentes, tem quem esteja disposta a te levar da prateleira.

o relacionamento acabou, mas sem enfiar a mão na cara do desgosto fica difícil seguir em frente. sim, deu tudo errado mesmo, e é isso aí, control+alt+del meu filho, só que desta vez, larga mão desse modo de segurança.

feito isso a coisa muda completamente de figura: todo mundo é campeão em alguma coisa, disse a pessoa: seja tu o medalista em andar pra frente.

Menos Hegel, mais Engels.

ofício de filho




fazia tempo que eu não ouvia ele na minha cabeça, tempo que não pensava no tempo que passei ouvindo aquela sabedoria de gelo. os dias que contam as horas que antecedem as visitas dele são assim: mudos. é como se a ausência das palavras retirassem do chão todos os ladrilhos que impedem-me de perder o referencial, jogando-me assim que nem meteoro de encontro a ele.

ele é lento como uma morte anunciada, que pinta a parede do quarto de quem se apaga e deixa tudo mais escuro. ele tem essa barba branca de médico que carrega o último noticiário, mas ele nunca vai te dizer "olha, eu sinto muito". o manto dele é da cor do que tu fugiste a vida toda, e mesmo assim, ele consegue manter a aparência saudável, tez desse branco luminoso, última faísca que olho enxerga antes de fechar para te dizer boa noite.

ele é um deus, e minha pele se arrepia em pensar no quão pessoal esse título soa aos meus ouvidos.

mil vezes ele me viu morrer, e mil vezes ele foi me buscar. depois de cruzar o mar, eu sempre acordava deitado na carroça dele, a cruzar o infinito das vidas que nunca me acabaram. algum tempo eu ficava ali deitado, padecendo dessa preguiça de decomposição: era preciso uma dessas pedras da vida cruzarem o meu caminho para sacudir os vermes que me preenchiam de alguma sensação teimosa de matéria.

ele nunca conversou comigo. nas inúmeras vezes que nos encontramos ele nunca me disse uma palavra, ou fez algum gesto mais brusco que o translado de última rocha. ele foi sempre assim, e com o tempo eu aprendi a imitar ele, no amor pelo negro escarlate que marca a mão que carrega os corpos de quem não fica. com o tempo eu fui perdendo todo o calor, até que o sol mesmo se transformou numa figura de linguagem: algo que colocaram lá para substituir o que todo mundo tem medo de dizer o que é.

quando eu me cansava, eu lembro dele me pegar na mão e me jogar de volta pra cá. eu batia no chão com força, e da queda ficava tonto e esquecia de tudo: de mim e do meu ofício. guardava uma vaga vontade de morrer, mas o corpo queria viver e me pedia carne e sangue. e eu dava carne e sangue, mas achava contraditório funcionar em algo que para morria enquanto vivia, e, nesse comédia de gato e rato, comia os dedos para só então viver.

várias vezes repeti esse jogo de cena em que eu era o ator de uma máquina produtora de odores esquisitos, alguns deles tão acres quanto o súbito estourar de uma mentira. ao fim de cada ato, a tragédia tinha o mesmo fim: eu e alguma lâmina, bicho ou notícia ruim na encruzilhada da passagem estreita do corredor frio.

eu aprendi a retirar o prazer da sensação de finitude: de imaginar que cada dia que passa é um pedaço que se foi. isso tudo me trás pra perto dele, e do nome que ecoa na minha cabeça desde que pela primeira vez eu consegui calar minha arrogância para poder despertar em vontades de mitologia. foi ele que me ensinou como cortejar a última senhora, e foi ele que me mostrou que do peito seco da morte jorra um leite mumificado pela costura delicada dos dedos do chacal, um outro amigo.

ele é um deus, e o seu nome é a chave que fecha a porta. eu não tenho nome, mas procuro ser o acúmulo de pequenas-mortes que me façam merecedor do único título que procuro: o de ser o filho dele...

por isso, silêncio sim, necessário: porque é do ofício de quem dorme carregar os que se esqueceram de acordar. mas que toda ausência seja feita da consciência do trabalho feito ou do que ainda pede por ser feito. essa foi a maior lição ele me deixou: deixar toda a conversa para os mortos, porque esses sempre tem algo o que dizer ou inventar.

fazia tempo que não sentia ele, mas hoje ele veio me ver. a mim não cabe outra coisa que não seja retribuir, ajudando-o a arrastar outros quase-vivos para esse reino pulsante das ausências de si mesmos. sinto meu pulso gelar e o ar que me escapa eu expulso com alegria.

silêncio sim: porque ele assim quer...

silêncio e escuridão, que hoje é dia de serviço.

Só o "C"



Só você,
Hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero, por querer.

preta no branco



estes dias eu fui até a minha gaveta e procurei um desses textos antigos que eu guardava para dar para ti. pensei que era a coisa mais óbvia a se fazer, afinal toda essas coisas escritas tem em si mesmas essa qualidade de juntar mofo: ficam ali em algum escaninho da tua alma, para quando aparecer aquele outro alguém você não ser pego de surpresa.

fui no catálogo e fiz minhas busca. pensei em te dizer algo que começasse com o céu e terminasse no chão de alguma praia, como um reflexo de lua-louca a dar pulinhos de meia-noite, que é quando amanhece para quem tem boca e beijo. pensei em fazer alguma metáfora entre o escuro lá fora e claridade que vai aqui dentro quando você se desnuda, nesse translado de embarcação antiga, que penetra o mar com essa segurança de sempre-mundo-novo. imaginei as ondas que arrebentam na minha praia todos os dias que trazem o cheiro do teu metal velho e bom, mas ao final vi que qualquer pretensão de fazer líquido dessa matéria toda, beirava um pecado horroroso de carvalho, crucifixo e pinho.

fechei os olhos e catei qualquer coisa dentro de mim: veio o de sempre. vi-me como em um espelho, alma velha e disposta, com a barba feita e os dedos enrugados. a vista sempre falha, que é o peso da ingenuidade. vi-me como em criança, os braços abertos, as pernas ensaiando passos que eu achava já ter dado, pretensões de quem engatinhava. vi novamente o céu, mas desta vez num dia claro de um dia que não existe na semana, algo como uma sexta-feira e uma terça: começo do descanso e o meio de alguma coisa. remexi-me para ver se sacudia de mim uma impressão mais exata do que fosse, mas só consegui ficar suspenso entre um dizer, um sentir e um agora é.

agora eu tinha uma lua num céu claro, e uma embarcação que balançava as ondas de um dia para copérnico definir. remexi mais o fundo da minha gaveta, com tanta vontade que toquei em alguma tripa minha solta, porque senti uma fisgada, dessas que a gente diz "ai" antes da dor, porque uma das sabedorias do corpo é avisar que tem algo grande perto. eu digo "tripa", mas na verdade quis dizer outra coisa que não revelo agora por algum falso escrúpulo, que nada mais é que a vontade de te ver adivinhar o nome de tudo que me vai por dentro...

e aí, o certo é que depois de muito tempo procurando, não achei nada. revirei tudo que havia dentro de mim, e nesse ofício destranquei portas e janelas e assoprei a poeira que ia por cima e por baixo. coloquei tanta energia nisso, e enquanto tinha energia procurei. quando cansei, sentei.. e o cansaço me trouxe um conhecimento de estava-na-mesinha-o-tempo-todo: você esteve sempre à vista, debaixo das camadas de coisas outras que não eram você. e quando você se mexeu, eu senti, e quando falou, eu ouvi, mas ficava rodando dentro de mim buscando um conceito, uma conversa ou um mimo velho para ver se te acalmava, porque pressentia essa tua vontade de papel branco em prateleira antiga.

por isso, este texto de hoje é em verdade o resumo do fracasso que eu venho sentido constantemente de te dizer algo que já decorei. eu simplesmente não tenho uma metáfora ou qualquer figura de linguagem que me satisfaça, que me faça dar aquele sorriso largo, que pesa na boca e faz a gente se espreguiçar na cadeira e dizer "eis ela, ponto". não tenho nada, o que é um tanto paradoxal, já que você me trouxe tudo.

em suma, peço que me perdoe pela simplicidade, pois ancorei todos os barcos, calei todas as luas e não gosto de dia muito claro. sei que a poesia perde um pouco hoje, mas mato ela para te dizer que simplesmente te quero desse querer de punhal cravado no livro, em golpe certeiro que não deixa escorrer uma palavra sequer. tenho por ti esse afeto incontido e vertical, como uma mordida em fruta recém-colhida: eu adivinho o teu gosto antes que você se misture na minha saliva, coisa que faz tão bem.

eu só tenho isso pra ti: um jeito de gostar tão completo, que me sinto como um ex-leproso na praia de nudismo. sinto-me os mais feliz dos "caras", e tenho essa vontade de sair contando vantagem a todo instante. tenho vontade de te esfregar na cara de todas as outras mulheres, não por raiva, nem mesmo por desforra, mas uma vontade de fazer de ti empirismo dessas loucas que andam por aí esquecidas do básico do básico, outra coisa que você faz tão bem.

é bom acordar todos os dias e saber que a única coisa que esperam de ti é que você seja você mesmo. outra coisa boa é acordar todos os dias com a calma de querer dos outros que eles sejam eles mesmo. acho que isso se aplica bem a nós dois: naturalmente somos o que há de melhor um pro outro.

não me resta mais nada, que não seja rasgar a carne, e suar um "muito obrigado" todos os dias, seja por ti, seja em ti. não que eu esteja de novo prenhe de pretensões líquidas, mas é a única maneira, a moeda, que encontro para saldar minha dívida contigo: o meu trabalho, dedicação, tesão e enorme carinho.

em suma, digo tudo isso para dizer que te amo. é simples assim.

100 (sem)-razões

ai, ai...



Pois está fazendo
Uma ano e meio amor
(Simpática!)
Que eu estive por aqui
Desconfiado, sem jeito
E quase calado
Quando fui bem recebido
E desejado por você
Nunca como eu
Poderia esquecer amor...

prayingmantis-ing, ou "obrigado"



Quem esperou, como eu, por um novo carinho
E viveu tão sozinho
Tem que agradecer
Quando consegue do peito tirar um espinho
É que a velha esperança
Já não pode morrer

La nuit des Masques



Seja você quem for
Seja o que Deus quiser.

Vigília

















Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.