Fulô de Azeviche (mais pequena)





Quando você fala bala no meu velho oeste
Quando você dança lança flecha estilingue
Quando você olha molha meu olho que não crê
Quando você pousa mariposa morna lisa
O sangue encharca a camisa

Para uma menina, com uma flor.




Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta,
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Vinícius

For the Sake of Being Fool




I've got you under my skin
I've got you deep in the heart of me
So deep in my heart that you're really a part of me
I've got you under my skin.
I try so not to give in
I say to myself this affair, it never will go so well
But why should I try to resist when baby, I know damn well
That I've got you under my skin.

I`d sacrafice anything come what might
For the sake of having you near,
In spite of a warning voice that comes in the night
It repeats, repeats in my ear
"Don't you know you fool, you never can win
Use your mentality, wake up to reality"
And each time I do, just the thought of you
Makes me stop before I begin,
Because I've got you under my skin.

I would sacrafice anything come what might
For the sake of having you near,
In spite of a warning voice that comes in the night
It repeats, how it yells in my ear
"Don't you know you fool, ain`t no chance to win
Why not use your mentality, get up, wake up to reality"
And each time I do, just the thought of you
Makes me stop just before I begin,
Because I've got you under my skin.
And I like you under my skin.

acab





























na china as crianças
aprendem a tomar água da chuva.
no sudão alguém se explodiu,
ou não, não importa.
o japão contribui todos os dias
para a diminuição do atum global,
e eu me pergunto que mundo é este
que os peixes tomam água e
as criancas da china
não.

a minha indignação, acho eu,
e tão grande quanto aquele canhão
que o paraguai perdeu, e a gente
achou na ponta da baioneta
de algum amigo de inglês
que montava bem o cavalo,
que é o meu horóscopo
chinês, veja você,
a história é cheia dessas
e de tantas outras
coincidências.

eu não consigo me conformar
com a falta de água, a falta de luz,
luz! falta, como falta e faz falta
uma mão no escuro, seja onde for,
abaixo ou acima do teu trópico
de cancer, não importa,
no sudão, vi dizer,
isso também não importa,
ou muito, não sei...

eu só consigo pensar no atum,
e no chinês!

vai ver é o tempo que deixa
toda a gente meio mística,
eu incluso:
eu me pego pensando, eu
me pego marcando
uma consulta,
uma acupuntura, um ponto,
uma costura
no meu corpo astral, adoro!
essa tal era de aquário,
que lava da gente
tudo que é miasma,
com a água que devia chover
no japão.

eu não consigo não
parar de pensar
no atum que comi,
na água que bebi,
e no pedacinho de tripa
que tá dentro de mim.

hoje uma criança
me parou na rua,
não, não era chinesa, logo,
não vi

hoje alguém morreu,
e morreu tão bem que
ninguém viu.
foi quando, indignada
de não ser alguém,
resolveu explodir
em mil cores e odores
de incômoda putrefação:
mesmo com toda aquela
algazarra festiva
de mosca e berne e verme,
nin-guém-viu

hoje um peixe
me parou na rua.
era saboroso,
e por isso,
eu comi...

no fim do dia
recebi um email,
era do greenpeace,
e, envergonhado, abri a
bonita missiva que
me alertava para o
problema que ninguém
ninguém-ninguém
quer ver, menos
eu@eu:

neste exato momento
o japão está matando
as baleias, e eu
não posso, não devo,
não vou - não desta vez -
ficar calado,

mas antes...

um copo d'água
de porcelana e
bem gelado!

ahoy.

pró-nomes

eu me indigno sim. claro que eu me indigno! já foi o tempo de bater na porta, terno aprumado, sorriso de bom moço. já foi o tempo de te ver de longe, passando na praça e fazer que nem te via para ver se você notava o sorriso que eu carregava no bolso da camisa, que é do lado esquerdo, sempre. já foi também toda a conversa brejeira, sapo teimoso que só faz barulho de noite porque ninguém ouve, ou quando ouve, liga pro síndico e diz pra baixar o volume do amor, que - vá lá - gostar faz bem, mas não precisa derrubar o prédio em cima da cabeça de quem não se gosta, como a gente.

já foi o tempo de dizer meia coisinha, empilhar o pequinininho para quando viesse o grande não assustasse ninguém. já foi o tempo de fingir que era bobagem, de andar de cabeça pra baixo pra ver se o coração escorregava pela goela, e de dizer para todo mundo que esse incômodo que vai no peito é pigarro, do cigarro que você fumou quando ouviu pela primeira vez aquilo que você já sabia que eu ia dizer.

quem diz já foi diz que fica pra dormir, e puxa o lençol e faz questão de acordar de madrugada, porque o quarto tá frio, ou estava.

e aí eu saio de casa e bato a porta. antes eu vesti meu terninho e fui pra rua pra ver a rua passar porque tava com isso entalado no peito. eu que aprendi a ouvir o silêncio tateando no escuro, tenho também o direito de ter meu dia de repartição. de acordar com o som do carimbo batendo na minha porta, de te ver com a papelada na mão me dizendo "olha, tá tudo certo". tenho sim, tenho até direito de cansar da poesia, do dito que se diz meio que se querendo dizer tudo mas sem falar tanto para não causar espanto, aquele de sempre. tenho direito à vontade de dia claro na praia, de deitar na areia e pensar que carangueijo são os outros, não meu bem.

não tenho? eu não estou te pedindo hora extra, que passe a noite em vigília das tuas tolices de menina que tanto me faz bem, mas quero sim férias. quero poder sentar no lugar mais alto do meu feudo e abrir o peito para você pousar. tenho essa vontade sincera de apenas ser a pista de de um vôo nada ousado, bem planejado e pensado, porque quem diz quero te ver diz estou a caminho e corre logo pro abraço, porque gentileza não é comida que se requente.

eu quero o simples: pão com manteiga, café com leite, e não me incomodo de preparar isso todos os dias. quero calma, quero paz, com açucar mesmo, servido na caneca, tudo quentinho, porque entre a gente as coisas são sempre assim. quero acordar um dia e não me espantar mais de você estar ali. quero a rotina, pasta de dente e briga de toalha molhada em cima da cama. não quero só isso, mas quero isso um pouco... porque eu sou assim também. quero a certeza que só quem dividiu o mesmo saco de pipoca sabe. o egoísta é aquele cara sozinho, no fundo do cinema, que sempre paga inteira.

eu quero um pouco, sim, eu quero. quero eu, eu quero. esse tempo todo eu só ouvi eu do outro lado da mesa, e balancei a cabeça e topei. agora eu peço que você seja menos eu e me deixe ser mais você e me dê o gostinho de um mimo, um abraço, um afago. que me diga o que sabe que quero escutar e o que preciso escutar: eu sou tão eu quanto você e como você mereço. sinto-me muito confortável em estar aí para você, mas você tem que estar aqui quando eu quiser também. isso se chama nós.

agindo assim, morreu eu, morre você e nasce a certeza que ambos queremos. não tem outro caminho. o nosso por enquanto é pelo ar, dia vem que vai ser pela terra, e até nadaremos contra a maré só pelo prazer das braçadas juntos. todavia, certo agora é que passarinho que não voa cai do ninho, vem a cobra e nhac, come. não é ameaça, é a biologia do desinteresse e falta de empenho. só vive quem ousa: o mundo é sempre maior que o raimundo, porque ele é um só.

apesar de você já saber o que diz que quer saber, se quer descobrir algo, mesmo o sabido, vai ter que começar quebrando o espelho pra ver o que tem dentro da parede. marrete daí que eu marreto daqui, e assim qualquer muro cai mais fácil e a gente faz aquela reforma no nosso quarto, que há tanto tempo estamos planejando, juntos.

quem diz sentir diz trabalho. arregace as mangas, ou então se contente com o contracheque magro e comida da prisão: sim, nenhuma parede - por mais colorida que seja - cai sozinha.

amo você

barulinho bom



Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo,
te pareces a la noche callada y constelada
tu silencio, otra estrella, tan lejano y sencillo.

Cecília



Não: já não falo de ti, já não sei de saudades.
Feche-se o coração como um livro, cheio de imagens,
de palavras adormecidas, em altas prateleiras,
até que o pó desfaça o pobre desespero sem força,
que um dia, pode ser, parece tão terrível.

A aranha dorme em sua teia, lá fora, entre a roseira e o muro.
Resplandecem os azulejos- e tudo quanto posso ver.
O resto é imaginado, e não coincide, e é temerário
cismar. Talvez se as pálpebras pudessem
inventar outros sonhos, não de vida...

Ah! rompem-se na noite ardentes violas,
pelo ar e pelo frio subitamente roçadas.
Por onde pascerão, nestes céus invioláveis,
nossas perguntas com suas crinas de séculos arrastando-se...
Não só de amor a noite transborda mas de terríveis
crueldades, loucuras, de homicídios mais verdadeiros.

Os homens de sangue estão nas esquinas resfolegando,
e os homens da lei sonolentos movem letras
sobre imensos papéis que eles mesmos não entendem...
Ah! que rosto amaríamos ver inclinar-se na aérea varanda?
Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos
da álgebra e da geometria.

existência & ismos



a idade da razão, esta nossa, é uma idade imoral. é uma idade líquida e perigosa que escorre pelos dedos, onde tudo é imagem e reflexo e fenômeno.

é quando você escuta tudo aquilo que não queria e pensa "ok...". como assim ok, cacete? tu tinhas um sonho, uma vontade, um tesão que fosse! tu te orgulhas de ti mesmo que a tua reação é não ter reação, é você se acha velho e sábio e no teu íntimo fica gritando contigo mesmo istonãovaimeatingiristonãovaimeatingir e por fora é toda aquela falsa calma de príncipe que tinha Napoleão na porta sem pedir licença para entrar. mil exércitos roendo os teus pés de moça e tudo que tu pensas nesse momento é "ok"

e aí você me encontra aqui, com a roupa suja de mais este dia que passou e senta na minha mesa: é deselegante, que senta e não pede copo. eu ali tomando algo para me esfriar as idéias e você nesse mutismo de irmão mais velho olhando a louça que adorna as outras mesas, e apesar de estar com fome quando eu te pergunto se vai algo para comer, vai, tá com cara de quem não comeu nada o dia inteiro, você me olha e diz "nada não, pra mim tá ok". sério, se eu fosse feito de outra matéria mais tangível que um pedaço irado de ti, eu ia enfiar a mão nessa tua cara redonda de fabricar consensos

eu sou obrigado a buscar a conversa: o que foi? você diz que não foi nada, porque o nada é a vizinha devassa desse ok que tu carrega no peito, calibre fino de pistola automática de matar incômodo antigo. e eu mastigando cevada, olhando para a tua cara de peixe criado em cativeiro, imaginando se calo a minha boca e pego minha pasta e vou pra puta que pariu da tua cachola, ou se fico ali, esperando o milagre. como sou consciência, meu ofício é sempre tentar dizer alguma coisa de algum jeito na hora que dá.

vá, diga lá cacete, o que se passa? mil suspiros depois você abre a boca, e é para pedir um copo! aleluia irmão, tava quase rezando a missa para ver se o vinho te deixava mais alegre. cara chato você às vezes viu, e acha que vai resolver tudo com esse anacronismo de pobre coitado que perdeu a última caravela. anda com esse bíblia toda riscada debaixo do braço, e acaba tentando o velho ofício de vender verdade na freguesia alheia. você se diz livre, mas eu que bem queria me ver livre de você.

sim, já que você tocou no assunto eu vou te falar: cansa viu? cansa esse teu papo quadrado, esse teu jeito de sentar com a perna dobrada para não sujar a barra da calça. esse teu olhar perdido de uma sabedoria também ela perdida. de ficar toda a vez enchendo o saco para tudo sair do jeito "certo" e faz questão de empinar pipa quando ameaça tempestade, por ter preguiça de caçar vento. e aí quando molha a mariola, vem choramingas pra casa, e senta na varanda e vara a noite entre "puxas" e "por que foi assim?"

outra? garçon mais uma! é... tô vendo que estamos rebeldes hoje hem? duas cervejas, daqui a pouco vai sair carregado daqui. lembra quando a gente saía junto pra beber? lembra das degustações...? é, eu sei... eu também lembro das bobagens... mas quer saber? foi bom não foi? a gente riu, a gente se divertiu e a gente era mais A GENTE: sim, era eu e você e o.. qual o nome dele? o outro, da tua cabeça também? sei lá... bobo brincalhão! adoro ele! pena que ele é criança e dava confusão ficar com ele até mais tarde na rua, mas enfim... lembra né? não precisa ajeitar o nó da gravata e fazer cara de santo recém canonizado: tô sabendo que não é mais a tua. mas cá entre nós, precisa também essa pompa toda de dia de procissão? se não tá na rua tá em casa sendo o motivo do velório, morto. cadê o budismo, cristão?

não... não... vamos parar por aqui. nada de misturar, nada de beber essa cachaça amarga pra ver se destila essa tristeza do teu peito. eu sei que não tá nada ok, e eu já pedi uma porção de batata frita. mas fazer o que companheiro? a vida é isso mesmo... tem de tudo no circus mundi. tem sal aí chefe? obrigado... então... escolhas. há de se fazer o que? eu penso que continuar se divertindo. quando você chegou eu estava aqui sozinho, e tem tempo que estou sozinho aqui porque você saiu nessa de fazer do mundo uma igreja... e quando tu entras nessa né? olha... não, não estou te desrespeitando, só acho que isso de religião é pior do que essa vodka ruim que tá aí no cardápio: sem moderação, mata também. quem sou eu pra te criticar, eu mal tenho tempo para pensar em outra coisa que não seja o aqui-agora, mas enfim... eu já te vi antes assim, e pelo que lembro, não funcionou muito bem não é?

a idade da razão, essa nossa, é de todo mundo também. então se acostume com o comportamento nada razoável das pessoas, a começar pelo seu: gostar é a arte mais difícil do mundo, quando tentada com a cabeça. enfiar um pincel no peito dói sim, mas só assim se cutuca o coração....

paga a conta?

Argolas Douradas




Que era uma mulher e amava essas as considerações de nível geral repetidas todas as manhãs, antes de descer às minúcias cotidianas. Depois vinham os problemas. As perguntas. Que era uma mulher não havia dúvida, embora o ser despenteado e vagamente sujo recém-desperto a olhasse um tanto assexuado do fundo do espelho. Concretizada a primeira afirmação (ou fato, como diria mais tarde aos alunos do segundo ano primário) -concretizada a primeira afirmação, como ia dizendo, ela afirmava-se e cumpria-se em mulher, passando em seguida à segunda. Que amava. Liberta do entorpecimento do sono que a perseguia até então, encarava-se antipatizada consigo mesma. Que amava? Pedra no caminho, a interrogação afazia tropeçar um pouco despeitada. Não com a pedra nem com o tropeção, que pedras sempre havia e tropeções eram fatais, mas com não poder passar adiante, sacudindo a poeira do vestido e acariciando prováveis arranhões. Lavava o rosto, fazendo-se mais e mais inteligente à medida que se despia dos acessórios do sono. Resíduos nos olhos, fios de cabelo fora do lugar, gosto ruim na boca – com sabonete, água, pasta e escova de dentes ela os eliminava um a um. E em sagacidade, crescia. Cabelos erguidos num coque, quase gênio, voltava à afirmação. Que amava. Pois afirmara e não apenas, modesta, indagara. Passava a outras operações. Matinais, femininas. No corpo, aquela quase idiota sensação de sujeira que o sono deixava. Sentia-se imoral ao acordar. Incestuosa. Principalmente quando sonhava consigo mesma. Ah houvesse um jeito de dormir completamente só, sem a companhia sequer de si mesma. Não havia. Incestuosamente, então, deitava-se às dez da noite para acordar às seis da manhã. Oito horas exatinhas. Às vezes detinha-se e pensava: antilunar o meu sistema. Quando deitava, a lua ainda não tinha vindo; quando acordava, já fora embora. Carregava pesada e magoada uma lua vista apenas por dentro. Que amava a lua? Obsessiva, voltava à pedra. Talvez descobrindo que lhe entrara no sapato. Por que não jogá-la longe de vez? Que amava? Em resposta, mirava-se triunfante no espelho, boca pintada, cabelo penteado, seios empinados, e totalmente assumida em mulher. Vagamente desgostosa triunfo murchando na vistoria do corpo -aqui entre nós, dizia-se, quase indecente na intimidade consigo mesma -aqui entre nós, um tanto passado. Franzia as sobrancelhas, disfarçava a raiva espiando pela janela.
O sol ainda não viera. E sem lua nem sol ela estava sozinha no banheiro. Esta revelação a fez baquear um pouco. Meio tonta com a solidão e a brancura do momento. Trôpega, buscou apoio na extremidade da pia, que respondeu fria e asséptica ao pedido de ajuda. Olhou para a porta, e se então tivesse saído teria escapado. Mas ficou. Ferindo a si mesma e por si mesma sendo ferida. Com o pretexto de lavar as mãos, molhou os pulsos, sem admitir a tontura – que às vezes tinha esses pudores íntimos.
Recuperada, voltou à pergunta. Que amava? Com fricotes de namorada, fingia não querer responder, não querer saber -que amava? Didática, explicou-se: amar, verbo transitivo direto: quem ama, ama alguma coisa. Ou alguém, completou. Analisou-se, voltando à afirmação do início -que era uma mulher e amava: 1)Que era uma mulher; 2)Que amava: a) alguma coisa ou b) alguém. O pronome indefinido colocou-lhe um arrepio definido e melancólico na espinha. Teve que substitui-lo por outro: ninguém. Havia, certo, vagos e avermelhados professores do colégio onde lecionava. Havia vizinhos? e homens? E vizinhos e homens, havia. E principalmente um namorado de adolescência a quem, preguiçosa, esquecera de amar -possibilidade de algum sofrimento relegada em fotografia à última gaveta da escrivaninha. E contudo, amava. Leviana, objetiva, espalhava seu amor sobre os móveis polidos com cuidado, o assoalho encerado, as cortinas lavadas, que sua casa era um brinco. A imagem lembrou-lhe as argolas de ouro há tempos esquecidas. Vou botar hoje, decidiu.
E encarou-se. Implícito no olhar, o pedido de desculpas por permitir-se àquela extravagância. Pedido de desculpas logo transformado em olhar de revolta. Afinal, não tenho o direito de usar o que é meu? Teatral: e por que raios não saio logo deste maldito banheiro? Acrescentou o adjetivo para ver se sentia um pouco de raiva. Mas o banheiro, branco, limpo, com azulejos, sais e sabonetes enfileirados nas prateleiras -o banheiro não era nada odiável. Com seu ódio recusado pesando por dentro, interrogou-se: que-que eu tenho hoje. A pergunta soou sem ponto de interrogação. Respirou fundo e repetiu em voz alta: que-que eu tenho hoje?
Então viu. Antes que tivesse tempo de terminar a pergunta, ela viu. Tentou disfarçar lembrando que seu nome -Irene -era de origem grega e significava "Mensageira da Paz", vira no Almanaque Mundial de Seleções na noite anterior, antes de dormir. Lindo lindo lindo -adjetivou três vezes em lento pânico. Tão lento que não atinou com despir-se inteira do que até então vira para sair nua e cega do banheiro. O pensamento dava voltas devagar, ela julgou ouvir um canto de criança longe. Tão longe que poderia ser também uma canção de ninar. Boba, sorriu. Toda enleada na viscosidade dos pensamentos, exatamente como uma mosca se debatendo bêbada, deliciada e aflita, numa armadilha de mel. Mas os minutos passavam enquanto sua possibilidade de libertação diminuía cada vez mais. Alheia à própria perdição ela afundava, Irene, embevecida. E se não saísse agora, já, exatamente nesta nota deste canto naquele passarinho daquela árvore ali de fora, se não saísse agora estaria perdida. Imóvel, Irene não ouviu o apelo do pássaro. E sem ter outro remédio, relegada a si própria, Irene viu.
Redonda, amarela, tentadora -a espinha brilhava na ponta do nariz. Passado o primeiro espanto, o gesto foi de pudor. Como se sua face exibisse uma obscenidade, um outro órgão sexual ainda mais cabeludo e mais oculto. Como se a quieta presença da espinha violentasse alguma coisa no dia. Mas corrigiu esse primeiro gesto, e contemplou-a novamente. O segundo movimento foi de orgulho. Como nascera de si espinha tão perfeita? Examinou-se conscienciosa da cabeça aos pés, e quando tornou a erguer os olhos o maravilhamento foi ainda maior. Era realmente uma bela espinha. De uma beleza geométrica: exata na circunferência, discreta na cor, formando dois ângulos de quarenta e cinco graus com as aberturas do nariz. Irene lembrou-se de compará-las às outras espinhas de sua vida. Mas aquelas, além de poucas, tinham seu habitat natural em suas costas, lugar inacessível aos olhos. Logo também o deslumbramento desestruturou-se, rolando em indagações pelo rosto abaixo. Como? Quando? Por quê? Na noite anterior, ao lavar o rosto, não vira sequer anúncio da espinha. E hoje, minutos afio recompondo-se, ainda não percebera nada. E seu rosto sempre limpo, prevenindo acontecimentos dessa espécie. E sua idade madura, superando esses problemas adolescentes. Todas as perguntas tinham resposta. Mas a espinha continuava. Alheia às investigações, atenta apenas a seu próprio amadurecer. Teria crescido durante a noite? Seria apenas uma espinha? Seria um ferimento inflamado? Seria -? Novamente Irene amaldiçoou as espinhas de outrora, nascidas sempre nas costas, e, portanto negando-lhe um eventual preparo para enfrentá-las.
Então, esgotadas as dúvidas, as hipóteses, as perguntas; esgotada sua própria resistência, ela caiu no círculo profundo que desde o início evitara. Dentro de si, olhou para trás e viu às suas costas os dias anteriores acumulados. Uma pilha inútil, discos fora de moda, revistas velhas, badulaques. E viu dias agrupando-se em semanas, em meses, em semestres, em anos, em décadas de cima daquela pirâmide quarenta anos a contemplavam. Tentou ver-lhes as faces, curvou-se um pouco, e mais, e mais ainda. Desnecessário esforço. As massas informes não possuíam feições. Não haviam passado por elas as coisas que geram rugas, vincos, sorrisos, expressões. Cheiros não haviam feito vibrar aquelas narinas. Sabores nos atingiam aqueles paladares, imagens passavam incógnitas pelos olhares fixos, sons desfaziam-se em choque e poeira contra ouvidos pétreos, contatos perdiam o sentido àqueles dedos frios. Quarenta monstrengos formados cada um de infinidades de outros a observavam, inertes. Tentou descobrir um vislumbre de ódio nas expressões. Nem isso. Sem solicitações ou expectativas, eles aguardavam. O que, deus, o quê? Pois se amava. Pois se distribuía seu amor por todas as coisas com que convivia. Pois se sofria. Pois se vezenquando chorava sem saber por quê.
Pois se não via a lua. Pois se tinha pena das crianças pobres na escola. Pois se encarara a espinha. Intensa na própria defesa acumulava atenuantes, justificando-se aflita. Contou desculpas nos dez dedos das mãos abertas em frente ao espelho. Não satisfeita, recorreu aos dos pés. Recorreria a outros, se mais tivesse. As desculpas se acumulavam me entende, eu não quis, eu não quero, eu sofro, eu tenho medo, me dá a tua mão, entende, por favor. Eu tenho medo, merda!
Devagarinho, deixou os ombros caírem. Com a mão, afastou da testa os cabelos molhados. O grito ressoara forte no banheiro, ecoando pelos azulejos para calar o pássaro lá fora. O pássaro que havia pouco fora sua possibilidade de salvação. Recusada. Sacudiu a cabeça, furiosamente afastando pensamentos. Que era uma mulher e amava, que era uma mulher e amava, queeraumamulhereamavaqueeraumamulhereamavaqueeraumamulhereamava foi repetindo e repetindo até libertar-se de tudo. Abriu os olhos, encarou-se. Feminina, amorosa, delicada, levou os dois indicadores até o nariz e suavemente espremeu a intrusa. Depois caminhou até a cozinha e servindo-se de chá na xícara rosada olhou com espanto o relógio. -Como é tarde, meu deus! Preciso me apressar! Apressou-se então, a boca cheia de pão com manteiga, ao mesmo tempo em que se imaginava na roda do cafezinho contando: -Imagina, Clotilde, hoje me aconteceu uma coisa tão engraçada!
Mas tão engraçada, repetiu em voz alta no meio da neblina, argolas douradas nas orelhas, a rua vazia. Saiu correndo para pegar o bonde. Sentada, acariciou medrosa a ponta do nariz.
Não ficara nenhum sinal.

Caio Fernando Abreu
"Verbo Transitivo Direto"

Fürsein



"Todas as formas de relacionamento íntimo atualmente em voga portam a mesma máscara de falsa felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre... Ao olharmos mais de perto e afastarmos a máscara, descobrimos anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição... As perfomances substituiram o êxtase, o físico está por dentro, a metafísica, por fora... A abstinência, a monogamia e a promiscuidade estão todas igualmente distantes da livre vida de sensualidade que nenhum de nós conhece"

SIGUSCH, Volkmar - "The neosexual revolution".

Marinheiro



II
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.
Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.
À minha frente, porta entreaberta, gotas da chuva caindo sobre sua roupa branca como se eu tivesse acendido uma vela com o pavio voltado para baixo, o marinheiro me olhava.
— O quê? — perguntei. Só compreendo agora, talvez não pudesse aceitar o convite. Perguntei como quando você diz acho que vai chover ou está frio hoje, ou me dá um cigarro, qualquer outra coisa assim sem importância, pressupondo que eu e ele nos movimentaríamos ainda segundo os ritmos mecânicos, na dança urbana dos passos ensaiados de além dos vidros pintados de roxo-amarelo. Mas ele repetiu claro:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.
— De onde você veio? — perguntei ainda, a mão na porta me separando dele.
— Vim da tua visão anterior — ele afastou as tiras coloridas que pendiam da porta. Gentilmente, mas seguro, afastou também meu braço, não como se pedisse licença para entrar num lugar que não lhe pertencia, mas ocupando o espaço que lhe era destinado. E repetiu: — Venho de tua visão imediatamente anterior a esta de agora, embora eu não seja uma visão.
— Quando eu descia as escadas?
Fechei a porta às suas costas.
— Quando você descia as escadas. Daquele navio atracado na baía. Aquela de areias brancas ofuscantes, a praia daquela baía, naquela ilha. Você não viu que daquela praia partia uma estrada, subindo pelas rochas até o farol?
Perguntei se não queria sentar.
— Estou muito molhado — disse, afastando um monte de palha para ajeitar-se entre algumas almofadas. Tinha pernas longas, sapatos cobertos de uma lama escura onde havia alguns talos de grama grudados, vi quando estendeu os pés, eu parado no espaço à sua frente.
— Você andou na grama?
— Andei. Logo após a areia branca da baía, havia uma grama alta. E mais adiante, um rio.
— E você viu então uma cobra deslizando entre juncos, na beira do rio?
— Sim, uma cobra verde. Dessas que não fazem mal a ninguém.
— Você a matou?
— Não mato o que não ameaça. Nem o que vive. Eu apenas passei.
— E a ave? Viu também a ave?
— Estava no meio do caminho. Me limitei a afas tá-la.
— Segurando naquele ponto exato onde as asas encontram uma com a outra?
— E onde mais? — puxou o cachimbo do bolso, com a mão direita. Bateu-o três vezes, boca para baixo, contra a palma da mão esquerda. — Apanhei muita chuva. Tem alguma bebida forte?
— Os marinheiros costumavam beber rum — eu disse, enquanto ele levantava a mão espalmada em frente ao meu rosto. Era uma mão grande, morena, forte, cheia de veias azuis salientes pelo esforço, as bordas externas cobertas por uma vaga penugem escura.
— Isso é lenda — de um pacote de fumo tirado do outro bolso ele enchia lentamente o cachimbo. Teve uma espécie de sorriso. Um brilho de ouro no fundo de sua boca, eu vi. — Bebo qualquer coisa. Desde que seja forte.
Entrei pelo pequeno corredor para ir à cozinha apanhar a garrafa de conhaque. Havia como uma vertigem na minha cabeça, mas meus gestos eram precisos. Atravessei o corredor, a segunda sala, alcan1 cei a cozinha, onde tirei de um armário a garrafa e F dois cálices. Eram cálices perfeitos, desses levemente ovalados, a boca mais estreita que a base bojuda. Tenho uma bandeja azul, não é uma bandeja especial, mas é bonita, de vidro azul, e brilha, sobre a qual dispus a garrafa com os dois cálices. Em certos dias de luz como aquele sábado não era, costumo colocar a bandeja azul ao sol, quando há, para que sua cor reflita os raios amarelos. Mudam de cor, dançam, circulam pela casa toda, pelo pátio, rebrilham, os raios. Com a bandeja nas mãos, voltando à sala, queria dizer a ele que estava atravessando a casa com o melhor que tinha nas mãos: uma bandeja de vidro azul, uma garrafa de conhaque e dois cálices perfeitos.
Cruzava de volta a segunda sala, depois o corredor, quando me chegou uma nova visão. Ela não voltou, depois que ele se foi. Portanto o que tive daquela visão foi apenas o que houve naquele momento.
Atrás de uma janela de vidraças divididas em vários pedaços miúdos estava o rosto de uma moça. Ela tinha uma das mãos, talvez a esquerda, aberta e apertada contra a vidraça. O outro braço suponho que estivesse caído ao longo do corpo, porque de onde estava não conseguia vê-lo. Uma franja espessa cobria sua testa, e entre o cabelo cortado na nuca e o rosto lavado eu podia ver um brinco cintilando. Um único brinco longo talvez com uma pérola ou um diamante suspensos na extremidade de um fio de ouro, e de alguma forma o sol ou outro tipo de luz, não das estrelas, porque não seria suficiente, embora bonito, devia bater contra a vidraça, pois a ponta do brinco, a pérola, ou a esmeralda, ou o diamante, ou o rubi, cintilavam, estrela mínima de sete pontas. Prefiro pensar agora que era um rubi, tinha brilho vermelho como de um Cristo flagelado que vi certa vez num museu, faz muitos anos. Chorava, o Cristo. Essa lágrima de sangue era um rubi. Do lado direito da boca da moça, um leve vinco, como esses de quem apenas tem vontade de sorrir ou por alguma razão precisa esconder uma espécie de divertida amargura. Mas no canto esquerdo, havia apenas dureza. Ou vazio. Ou nada disso, não importa.
Fui me libertando aos poucos da visão. Como quem atravessa uma cortina de contas penduradas, dessas que se enovelam no corpo, com movimentos brandos, de ombros, cintura, pescoço, aos poucos os fios se desembaraçando dos membros. Um dos olhos dela sorria cúmplice. O outro criticava, cínico. Quando depositei a bandeja azul aos pés dele — tinha descalçado os sapatos, sustentava o calcanhar de um dos pés sobre os dedos do outro, as mãos cruzadas atrás da nuca —, perguntou servindo-se:
— Quem era ela?
— Ela quem?
— A moça na janela.
Eu me acomodei nas almofadas à sua frente. Minhas pernas ficaram estendidas ao lado das dele. Devagar enchi nossos cálices. Não tínhamos pressa. Estava anoitecendo. Chovia. Era sábado, era novembro. Atrás de qualquer palavra que disséssemos havia outras mais tranqüilas, porque tínhamos conseguido atravessar quase mais um ano inteiro — eu, ele, todos —, e tinha sido duro, mesmo que nem eu nem ele nem ninguém depois de um tempo fôssemos capazes de distingui-lo especialmente dos anteriores, tão iguais a esse que passava. Mas estávamos ali, como dois sobreviventes — para usar a linguagem que ele provavelmente teria, se falássemos disso — de um naufrágio. Ou para usar a minha própria linguagem, essa de gente que vive amontoada entre outras gentes, mesmo quando se retira, porque a vida incha lá fora, invadindo as janelas fechadas, sobreviventes de uma série descolorida de fracassos iguais e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas. Eu podia falar lento, deixando o que dizia escorregar da garganta para a língua, da língua em movimento contra o céu da boca para os lábios, que com o ar soprado entre os dentes formaria palavras um pouco ao acaso, sem muita importância, dizendo coisas como:
— A moça. A moça na janela.
— Sim, a moça na janela — bebeu mais um gole, me olhou atento.
— Eu a tive um dia — fui dizendo sem dificuldade, exatamente como previra. De algo profundo como o estômago ou os intestinos subia pelo peito, atravessava longos canais escuros, atingia a língua, debruçava-se sonoro, quem sabe incompreensível, para o outro. Era assim, conversar, fui redescobrindo enquanto contava:
— Não sei se era ela. Uma moça pálida. Tinha algumas sardas nos ombros. Essas manchas castanhas, às vezes avermelhadas. Ela as tinha, nos ombros. Sei porque via sempre seus ombros nus. — Toquei no pé dele, as meias brancas molhadas de chuva. — Eu a tocava assim, nos pés. E apertava. Ela sempre me sorria. Gostava de pintar a boca de vermelho forte. Você consegue imaginá-la? Muito branca, aquelas sardas nos ombros, a boca pintada de vermelho forte. Gostava de vestir-se de preto, também. Embora eu costumasse dizer que não era bom, absorvia vibrações, todas as vibrações, as energias. Boas, más, todas. Então a boca pintada de vermelho forte vivo ressaltava ainda mais. Qualquer coisa vermelho vivo, a boca, entre o preto do vestido e o branco da pele.
Ele tornou a encher o cálice.
— Você gostava dela?
— O que é coisa, gostar?
—Você sabe.
— Acho que sim. Embora não parecesse. Tanto, tanto tempo.
Bebi mais. Que não tinha importância. Gostar, o passado, a moça, os pés. Eu não podia ter memórias. Acho que disse isso em voz alta. Ou não era preciso, porque ele falou:
— Por que não ter memórias?
Os buracos negros, eu quis dizer. Mas fiquei quieto, desejando apenas ter um disco qualquer de cítara tocando para que nesse momento pudéssemos interromper a conversa para prestar atenção num acorde qualquer entre duas cordas, mais um silêncio que um som. Sempre podíamos ouvir a chuva, seu bater compassado na vidraça. Ou acompanhar com os olhos as gotas escorrendo atrás do roxo e do amarelo. De pontos diferentes, às vezes duas gotas deslizavam juntas para encontrarem-se em outro ponto, formando uma terceira gota maior. Mas talvez ele achasse tedioso esse tipo de diversão.
— Ter memórias — repeti.
Mas não era aquela moça, nem aquela a tarde, que tudo que foi de mim perdeu-se no inatingível centro obscuro desses buracos. Começava a ficar tonto com a bebida. Quis dizer a ele que a cidade não tinha mar, que eu apenas pretendia pintar a segunda vidraça de baixo para cima, para que os vizinhos não conseguissem espiar a minha vida. Quando pensei nisso tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma agitada roda colorida. Subia e baixava — eu, a Roda da Fortuna — nos braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um arcanjo dourado, em susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a ele que me havia afastado assim para que a Roda rodasse distante de mim, sem me envolver em seus volteios vertiginosos.
— Vim de longe — ele disse. — Eu vim de fora de ti.
Quis dizer-lhe ainda que longe estava eu, embora na rua de casas lado a lado, apertadas umas contra as outras feito pessoas com frio, mas por algum motivo precisei levantar. De repente fiquei no meio da sala, o cálice cheio numa das mãos, a outra solta no ar, esboçando um gesto que não era capaz de fechar.
Ouça, tentei.
E não sabia como continuar. Passa-me agora pela cabeça que os vizinhos poderiam reclamar das luzes nas janelas escancaradas, da energia excessiva saindo pelas janelas escancaradas. Bêbada, confusa, farpada. Mas não consigo me deter. Embora não conheça o ponto onde devo chegar, é para lá que me dirijo cego, aos trancos. Pouco importa o que poderia me afastar desta tentativa quem sabe inútil de recuperá-lo, ou o que trouxe consigo desde que veio e se foi. Perdi meu equilíbrio quando veio, e mentia meu equilíbrio antes que viesse.
Olhava para mim, ali estendido sobre almofadas. Um vinco, eu via atentamente, um vinco partindo seu lábio inferior, quase emendado com outro que subia da extremidade do queixo até a borda do lábio inferior, onde o vinco anterior unia os dois num só, duas gotas de chuva se encontrando. Acho que o aceitei inteiramente nesse momento, ao perceber os contornos do rosto que me olhava com estranheza, como pedindo explicações ou tentando explicar a mim mesmo para mim, que não me via.
— Você tem grades nos olhos — disse. Acendeu o cachimbo. Um perfume adocicado misturou-se ao cheiro de mar. — Elas estão quase sempre abertas. Não são suficientemente estreitas para prender alguém ou alguma coisa. Houve um dia em que você deixou alguém fugir por entre as grades.
Voltei a sentar. Lembrei do segundo quarto no andar de cima. Cruzei as pernas na frente dele. Queria vê-lo melhor, embora já o tivesse visto. Um marinheiro, confirmei sem compreender. Tirara os sapatos, o chapéu, vestia-se de branco, estava deitado nas almofadas à minha frente. Então transformou-se. Sei que é brusco dizer assim, mas foi exatamente assim. Gostaria de ter certeza de que realmente o vira deitar alguma coisa como um pó ou comprimidos na minha bebida, tisanas, antes de transformar-se. Mas não seria verdadeiro.
Eu estava um pouco tonto. As luzes da rua tinham começado a acender. Anoitecia. O roxo-amarelo dos vidros ganhou um brilho artificial quando me levantei para acender a vela no castiçal de cerâmica. Tenho horror a essas luzes que desvendam os poros abertos das pessoas, revelando sujeiras escondidas, mesmo que há muito tempo não as veja. Protegi a chama entre as palmas das mãos, mas quando me voltei para perguntar-lhe qualquer coisa como o que ou onde ou quando ou quem — ele era um grande gato cinzento me olhando com olhos verdes sobre a almofada cor de vinho. Espreguiçou-se lento, curvando as costas enquanto alongava à frente a pequena pata de unhas distendidas para depois cravá-las superficialmente, com tédio, com distraído gozo, na carne da almofada. Quando tornei a me abaixar, debruçando-me sobre ele, roçou o dorso quente contra as costas frias da minha mão. Apertei as frontes e os olhos com a outra mão. Ao retirá-la, o marinheiro me olhava.
— Tive outra visão — eu disse.
— Não foi uma visão. Sou muitos. — Sorriu. — Onde é o banheiro?
Acompanhei-o escada acima. Pelo corrimão, podia ver: aquela mão saindo de sob a manga branca era a mesma que segurava as asas da ave no ponto onde se uniam. Escurecia. Quis avisá-lo de que passaríamos pelo quarto vazio, e me debati, asas seguras no limite da entrada, tentando dizer-lhe que tinha sido ali. Então olhei para dentro e vi um anjo de grandes asas brancas e pés descalços sobre o piso riscado.
— Me olhas com olhos tristes — eu disse.
— Porque já me fui e nada do que poderias fazer agora eu conseguiria fazer novamente, então sinto pena — disse o anjo fechando as asas sobre o rosto magro.
Pairava sobre brasas incandescentes espalhadas pelo piso do quarto. Para não pisá-las com seus pés brancos precisava agitar as asas com algum esforço, mantendo-se em levitação, acima do fogo. Ele batia as asas suspenso sobre as brasas, um pouco ridículo. Tive vontade de rir, mas como uma ventania súbita tivesse invadido a casa, eu disse que tinha velas e mostrei a porta do banheiro.
Conhecia aqueles ventos. Armavam-se de repente além do contorno dos edifícios que eu via da janela do segundo quarto, depois desabavam paredes adentro, soprando por todos os cantos os fiapos dos montes de palha, as contas, as tiras coloridas. Dentro do banheiro havia uma moça de ombros nus cobertos de sardas, olhos pintados de preto, boca muito vermelha, seios expostos como duas pêras maduras, as pontas levemente avermelhadas de onde sobressaía o bico mais escuro que devia prendê-los à árvore. Quis tocá-los. Cheguei a estender a mão. Foi quando vi a cauda úmida de peixe emergindo da banheira para elevar-se, verde brilhante escamoso contra os azulejos brancos. Ela sorria para mim, sereia, me convidando, Ulisses. Como uma visão, mas eu sabia que não era nenhuma das imagens libertadas do buraco negro da memória. Quando tentei tocar seus seios claros, respingados de sardas, senti o vento das asas batendo do anjo preso no segundo quarto a me comprimir contra a parede de corredor estreito, e logo depois o interior sedoso de uma capa negra com dois caninos agudos de vampiro dentro de lábios descorados abertos num meio sorriso, aproximando-se lento das veias da minha garganta. Quis senti-lo assim, macio assassino penetrante agudo suculento afundar os caninos na minha carne. Cheguei a inclinar de leve a cabeça sobre o ombro, oferecendo o pescoço para que me tivesse mais fácil.
O vinho está quase no fim. A manhã vem vindo, não sei se conseguirei continuar contando. Naquele momento meu sangue escorreria para dar-lhe vida, essa mesma que não sei para onde levo, entre tantas quinas. Sinto frio, me debruço. O hálito gelado dele se aproxima das minhas veias, mas basta que eu suspire para que se transforme num cãozinho miúdo, inofensivo, descendo os degraus em direção à sala. Afago-o com as pontas distraídas dos dedos, manchas pretas sobre o dorso branco. Reconheço, estou em desequilíbrio, estou me distanciando cada vez mais. Faço este esforço até quem sabe alcançar um ponto tão remoto que não saberei jamais encontrar o caminho de volta, se existe um, e penso que não.
Ao pé da escada ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem o peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas. Quero perder-me nele, como o que nunca terei, mas quando fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejam, eu, ele, uma coisa única, minhas mãos apertam o caule estreito e áspero de uma palmeira. Um vento qualquer faz com que seus galhos balancem. Quando balançam então é como se eu visse o céu, planetas, cometas, constelações, objetos não-identificados, essa palmeira nua estendida contra um céu cheio de estrelas, lunar crescente às tuas costas, quero dizer, Aldebarã logo abaixo, Vega à esquerda, Arcturus acima, basta estender a mão. Resta no ar o sal perdido de uma distante maresia, no limite dos dedos, e em cada uma das extremidades uma estrela de sete pontas iluminadas, dez rubis incendiados como a lágrima na face do Cristo que perdi no dia em que a luz cessou.
Na base da escada, no centro da sala. Anoiteceu. Encosto o topo de minha cabeça de ralos cabelos contra o tronco seco da palmeira. Depois choro. Quase sem som. Como nas canções de miúdos arquejos, um estremecimento que faz o peito vibrar, elevando-se até os ombros. Sobe pela garganta, atinge os lábios, alcança a testa comprimida contra a palmeira como se quisesse ferir ou perfurar a si mesma. Ergo meus braços. Mesmo na ponta dos pés não consigo alcançar as palmas altas que balançam ao ritmo do vento vindo talvez de outras terras, mas certamente do mar presente nesse ar salgado que me faz contrair os olhos como antes, quando descia as escadas para abrir a porta.
Eu estava parado no patamar da escada quando ele me disse:
— Tenho sete formas. Navegue.
Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade.
Pedi que ficasse, como não ficou o outro. Mas não o suportaria, acrescentei a seguir. Sorriu. Como se nada do que eu pudesse dizer fosse capaz de modificar sua partida. Ainda chove, tentei dizer. Não importa, será melhor assim, repetia sua mão estendida. Passou-a devagar na minha face. Eu era uma coisa pequena, rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face. Ele tocou. Calçou os sapatos, apanhou o chapéu. Eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto — a segunda cama, a segunda vida — talvez para sempre. Eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida, oferecendo. Estendi a mão. Ele não podia acei tá-la
Eu não devia estendê-la.
— O navio demora pouco no porto — disse antes de partir. — Um marinheiro desce, olha a terra, às vezes deposita algo, e logo torna a partir.
Seus olhos tinham a r do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, durante todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar. Conquistara esse verde móvel, inquieto, esse vagar. Tocou de leve minha mão estendida. E se foi. Ainda chovia. Fechei a porta às suas costas. Por entre os roxos e amarelos da pequena vidraça vertical, podia perceber a silhueta de alguém se afastando. Dentro de uma noite de sábado, não de agosto. Era novembro. Bebi outro gole de conhaque. Fui escorregando para o fundo, no meio das almofadas. Amanhecia. Na casa em frente, os ruídos tinham silenciado. Seria um longo domingo. Não estava triste, mesmo assim recomecei a chorar enquanto ouvia outra vez o aviso guardado para sempre na memória das paredes:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.

Caio Fernando Abreu
"Marinheiro"

Let's Dance




tempos estranhos esses quando a gente fica ali olhando a porta e imaginando a campainha tocar porque estamos dentro e quem tá fora não sabe se quer entrar estando a meio caminho de um corredor longo que parece mais a barriga de uma cobra escuro e medonho e o braço não responde e o medo pesa a mão que nem o relógio grande que te deram para marcar a hora de ir embora e que sempre atrasa quando você quer chegar

tempo estranho sim esse que diz tic e nunca tac que bate sozinho e que você reclama puxa queria que não fosse assim e sonha acordado ou acordada que eu não sei bem qual é a tua preferência mas de qualquer maneira a matéria do sono é a mesma é você ali encostado ou encostada com o ouvido no muro ouvindo um coração de pedra bater que nem marreta derrubando tudo que é defesa que você ergueu e você ri e tá feliz porque alguém resolveu te deixar em caquinho e não inteiro e você tá contente sim porque o que não te mata te faz sorrir nem que seja o riso do banguela porque quem diz que falta dente diz que tem buraquinho pra pessoa entrar

tempo estranho esse que se você vive dormindo para nunca se realizar e tem sempre alguma coisa pronta para escrever no teu caderninho do que não foi e pensa puxa vida queria que não fosse assim mas tem a letra pronta caneta preta para anotar tudo de ruim e fazer serão com toda a gente que é como você também é pedreiro ou pedreira e ergue parede alta com concreto e vidro pra ver o que está lá fora mas te preservar daquele vento frio que de vez em quando bate e termina na espinha levantando a escama

tempo estranho esse tempo e ele nunca passa se você não passar por ele primeiro e chegar ofegante até à papelaria do moço ou da moça que eu não sei que papelaria tem perto da tua casa e dizer eu quero uma caixa de lápis de cor e voltar correndo até em casa e no teu baú tem um álbum preto e branco que na verdade é preto e amarelo porque papel quando fica velho fica assim meio doente quando não vê dedo de criança e aí você começa a rabiscar tudo no começo meio sem jeito meio que com vergonha e borra tudo fora do desenho naquela ânsia de início de fazer tudo direitinho o urso até sai assim meio marronzinho que é o jeito certo de fazer as coisas e no começo você pensa que tem que fazer tudo certo porque fez errado até agora e tem certeza que o errado não funciona

mas aí quando o marrom acaba você pensa agora vou lá correndo de novo e pergunto para a moça ou moço se tem mais marrom mas aí pega o amarelo e pinta uma orelha e acha engraçado e agradece a preguiça que teve de correr tudo de novo porque geralmente quem corre não presta muita atenção por onde está indo mas só pensa para onde vai e chegar logo nessa euforia de marrom e aí quando descobre amarelo quer pintar sol em vez de bicho e se esquece porque deabos gostava tanto de tudo que não fosse primário e por isso bonito por ser simples ou o princípio de tudo

e os dias vão passando e você vai experimentando até um dia que corta a mão no papel e descobre que vermelho também é cor mas em vez de parar e pintar tudo de sangue segue rindo porque sabe que papel não corta fundo o suficiente para atingir o nervo que é o que te faz colorir e rir ao mesmo tempo

e o tempo passa e o muro caiu e no lugar tudo agora é papelão azul amarelo vermelho o verde é a cor da grama com caminho para gente passar sem cerca nem campainha e quando você menos espanta não tem só um mais várias pessoas ali paradas algumas procurando ainda a campainha outras sem saber o que fazer quando não tem muro mas o certo é que entre eles ou elas que eu já disse que não sei o que você gosta mesmo mas o certo e que tem uma e não precisa mais que uma que seja entra e no meio da sala chega e te pergunta ei menina ou menino quer dançar e aí é quando você larga o lápis e o papel e descalça ou descalço aprende o ofício de virar minhoquinha no jardim dos outros

tempos estranhos estes mas com certeza ainda é tempo de mudar muita coisa começando por você e por mim pois se faltar vermelho eu tenho azul e amarelo nunca vai faltar que amarelo é sol e o oposto de se estar sozinho e que a nossa vida seja um eterno guache porque quem diz água diz me lava e aceita que nem tudo é certo mas não deixa de ser arte por isso

<3

Fado Tropical



Sabe...
No fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente...
Chora.

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa

ευχαριστώ



Τι είναι αυτό; Δεν ξέρω... Δεν καταλαβαίνω, but give me sometime.
Θέλω αυτό, Εντάξει; But give me sometime.
Now what I can say is Ευχαριστώ and that Παρακαλώ in my life.

Γειά σου, see you in Δεκαπέντε Ημἐρασ.

Não, não pára.



Aprende uma coisa, de uma vez por todas:
Se existe uma coisa nesta vida, nesta nossa vida.
Que defina melhor esse caldeirão que é
Tudo que eu acredito.
É que ninguém e nada nesta vida
Vai conseguir, ao menos
Um pedacinho da carapaça que me cobre.

Eu sobrevivi, sobrevivo e vou sobreviver.
E mais do que isso
Eu vivi, vivo e vou continuar vivendo.

Então, meu bem, sinceramente...
Arruma algo melhor o que fazer

Tenho idade o suficiente
Para ter heróis lindos que
Lembram-me todos os dias
Da espessura da minha própria pele

Obrigado e seja feliz.
Ou ao menos, seja menos
Para ser um pouco mais

Fica a dica.