Fürsein



"Todas as formas de relacionamento íntimo atualmente em voga portam a mesma máscara de falsa felicidade que foi usada pelo amor conjugal e mais tarde pelo amor livre... Ao olharmos mais de perto e afastarmos a máscara, descobrimos anseios não-realizados, nervos em frangalhos, amores frustrados, sofrimentos, medos, solidão, hipocrisia, egoísmo e compulsão à repetição... As perfomances substituiram o êxtase, o físico está por dentro, a metafísica, por fora... A abstinência, a monogamia e a promiscuidade estão todas igualmente distantes da livre vida de sensualidade que nenhum de nós conhece"

SIGUSCH, Volkmar - "The neosexual revolution".

Marinheiro



II
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais — ele disse, e seus olhos tinham a cor do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar, acompanhando o vôo das gaivotas, interrompendo-se em rochedos, nivelando-se ao movimento incessante das ondas. Verdes de um verde movediço entre o denso do vidro e o suave da hortelã recém-plantada, líquidos como água móvel, interior de gruta, rasos de pedras claras. Visíveis, os olhos vivos do marinheiro me olhavam molhados pela chuva, vértice de um novo movimento para onde eu convergia inteiro.
Para olhá-lo, também eu precisava de certa loucura. Essa, que me indicava. A mesma a que me tenho negado em susto, atravessando cotidianos de monótonos côncavos deliberados, movendo-me pelos labirintos coloridos desses interiores sempre previstos, embora absurdos. Não havia sol naquela tarde, nem cores caindo sobre os objetos. Eu não estava distraído nem tinha disfarce algum quando ele me olhou. Ele não tinha nenhum disfarce quando eu o olhei. Mas não devia me permitir escorregar naquele mergulho de peixes quem sabe vorazes, isso só compreendo agora, e com esforço, sete dias depois de sua partida, uma garrafa de vinho tinto, a chuva se foi, restaram o frio e a umidade que amolece papéis e vontades, aberta ao lado da janela escancarada para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Preciso dizer neste momento, embora talvez não caiba aqui. Ainda que me tenha isolado assim drástico, ainda que elabore dentro de mim e da casa pacientes, irrefutáveis justificativas para ter cerrado as portas ao de fora, o humano que afastei através dos vidros coloridos, esse humano dói, palpita, ofega, tem ritmos suarentos fora de mim.
À minha frente, porta entreaberta, gotas da chuva caindo sobre sua roupa branca como se eu tivesse acendido uma vela com o pavio voltado para baixo, o marinheiro me olhava.
— O quê? — perguntei. Só compreendo agora, talvez não pudesse aceitar o convite. Perguntei como quando você diz acho que vai chover ou está frio hoje, ou me dá um cigarro, qualquer outra coisa assim sem importância, pressupondo que eu e ele nos movimentaríamos ainda segundo os ritmos mecânicos, na dança urbana dos passos ensaiados de além dos vidros pintados de roxo-amarelo. Mas ele repetiu claro:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.
— De onde você veio? — perguntei ainda, a mão na porta me separando dele.
— Vim da tua visão anterior — ele afastou as tiras coloridas que pendiam da porta. Gentilmente, mas seguro, afastou também meu braço, não como se pedisse licença para entrar num lugar que não lhe pertencia, mas ocupando o espaço que lhe era destinado. E repetiu: — Venho de tua visão imediatamente anterior a esta de agora, embora eu não seja uma visão.
— Quando eu descia as escadas?
Fechei a porta às suas costas.
— Quando você descia as escadas. Daquele navio atracado na baía. Aquela de areias brancas ofuscantes, a praia daquela baía, naquela ilha. Você não viu que daquela praia partia uma estrada, subindo pelas rochas até o farol?
Perguntei se não queria sentar.
— Estou muito molhado — disse, afastando um monte de palha para ajeitar-se entre algumas almofadas. Tinha pernas longas, sapatos cobertos de uma lama escura onde havia alguns talos de grama grudados, vi quando estendeu os pés, eu parado no espaço à sua frente.
— Você andou na grama?
— Andei. Logo após a areia branca da baía, havia uma grama alta. E mais adiante, um rio.
— E você viu então uma cobra deslizando entre juncos, na beira do rio?
— Sim, uma cobra verde. Dessas que não fazem mal a ninguém.
— Você a matou?
— Não mato o que não ameaça. Nem o que vive. Eu apenas passei.
— E a ave? Viu também a ave?
— Estava no meio do caminho. Me limitei a afas tá-la.
— Segurando naquele ponto exato onde as asas encontram uma com a outra?
— E onde mais? — puxou o cachimbo do bolso, com a mão direita. Bateu-o três vezes, boca para baixo, contra a palma da mão esquerda. — Apanhei muita chuva. Tem alguma bebida forte?
— Os marinheiros costumavam beber rum — eu disse, enquanto ele levantava a mão espalmada em frente ao meu rosto. Era uma mão grande, morena, forte, cheia de veias azuis salientes pelo esforço, as bordas externas cobertas por uma vaga penugem escura.
— Isso é lenda — de um pacote de fumo tirado do outro bolso ele enchia lentamente o cachimbo. Teve uma espécie de sorriso. Um brilho de ouro no fundo de sua boca, eu vi. — Bebo qualquer coisa. Desde que seja forte.
Entrei pelo pequeno corredor para ir à cozinha apanhar a garrafa de conhaque. Havia como uma vertigem na minha cabeça, mas meus gestos eram precisos. Atravessei o corredor, a segunda sala, alcan1 cei a cozinha, onde tirei de um armário a garrafa e F dois cálices. Eram cálices perfeitos, desses levemente ovalados, a boca mais estreita que a base bojuda. Tenho uma bandeja azul, não é uma bandeja especial, mas é bonita, de vidro azul, e brilha, sobre a qual dispus a garrafa com os dois cálices. Em certos dias de luz como aquele sábado não era, costumo colocar a bandeja azul ao sol, quando há, para que sua cor reflita os raios amarelos. Mudam de cor, dançam, circulam pela casa toda, pelo pátio, rebrilham, os raios. Com a bandeja nas mãos, voltando à sala, queria dizer a ele que estava atravessando a casa com o melhor que tinha nas mãos: uma bandeja de vidro azul, uma garrafa de conhaque e dois cálices perfeitos.
Cruzava de volta a segunda sala, depois o corredor, quando me chegou uma nova visão. Ela não voltou, depois que ele se foi. Portanto o que tive daquela visão foi apenas o que houve naquele momento.
Atrás de uma janela de vidraças divididas em vários pedaços miúdos estava o rosto de uma moça. Ela tinha uma das mãos, talvez a esquerda, aberta e apertada contra a vidraça. O outro braço suponho que estivesse caído ao longo do corpo, porque de onde estava não conseguia vê-lo. Uma franja espessa cobria sua testa, e entre o cabelo cortado na nuca e o rosto lavado eu podia ver um brinco cintilando. Um único brinco longo talvez com uma pérola ou um diamante suspensos na extremidade de um fio de ouro, e de alguma forma o sol ou outro tipo de luz, não das estrelas, porque não seria suficiente, embora bonito, devia bater contra a vidraça, pois a ponta do brinco, a pérola, ou a esmeralda, ou o diamante, ou o rubi, cintilavam, estrela mínima de sete pontas. Prefiro pensar agora que era um rubi, tinha brilho vermelho como de um Cristo flagelado que vi certa vez num museu, faz muitos anos. Chorava, o Cristo. Essa lágrima de sangue era um rubi. Do lado direito da boca da moça, um leve vinco, como esses de quem apenas tem vontade de sorrir ou por alguma razão precisa esconder uma espécie de divertida amargura. Mas no canto esquerdo, havia apenas dureza. Ou vazio. Ou nada disso, não importa.
Fui me libertando aos poucos da visão. Como quem atravessa uma cortina de contas penduradas, dessas que se enovelam no corpo, com movimentos brandos, de ombros, cintura, pescoço, aos poucos os fios se desembaraçando dos membros. Um dos olhos dela sorria cúmplice. O outro criticava, cínico. Quando depositei a bandeja azul aos pés dele — tinha descalçado os sapatos, sustentava o calcanhar de um dos pés sobre os dedos do outro, as mãos cruzadas atrás da nuca —, perguntou servindo-se:
— Quem era ela?
— Ela quem?
— A moça na janela.
Eu me acomodei nas almofadas à sua frente. Minhas pernas ficaram estendidas ao lado das dele. Devagar enchi nossos cálices. Não tínhamos pressa. Estava anoitecendo. Chovia. Era sábado, era novembro. Atrás de qualquer palavra que disséssemos havia outras mais tranqüilas, porque tínhamos conseguido atravessar quase mais um ano inteiro — eu, ele, todos —, e tinha sido duro, mesmo que nem eu nem ele nem ninguém depois de um tempo fôssemos capazes de distingui-lo especialmente dos anteriores, tão iguais a esse que passava. Mas estávamos ali, como dois sobreviventes — para usar a linguagem que ele provavelmente teria, se falássemos disso — de um naufrágio. Ou para usar a minha própria linguagem, essa de gente que vive amontoada entre outras gentes, mesmo quando se retira, porque a vida incha lá fora, invadindo as janelas fechadas, sobreviventes de uma série descolorida de fracassos iguais e mesmas tentativas, idênticas queixas, esperas inúteis, mágoas inconfessáveis de tão miúdas. Eu podia falar lento, deixando o que dizia escorregar da garganta para a língua, da língua em movimento contra o céu da boca para os lábios, que com o ar soprado entre os dentes formaria palavras um pouco ao acaso, sem muita importância, dizendo coisas como:
— A moça. A moça na janela.
— Sim, a moça na janela — bebeu mais um gole, me olhou atento.
— Eu a tive um dia — fui dizendo sem dificuldade, exatamente como previra. De algo profundo como o estômago ou os intestinos subia pelo peito, atravessava longos canais escuros, atingia a língua, debruçava-se sonoro, quem sabe incompreensível, para o outro. Era assim, conversar, fui redescobrindo enquanto contava:
— Não sei se era ela. Uma moça pálida. Tinha algumas sardas nos ombros. Essas manchas castanhas, às vezes avermelhadas. Ela as tinha, nos ombros. Sei porque via sempre seus ombros nus. — Toquei no pé dele, as meias brancas molhadas de chuva. — Eu a tocava assim, nos pés. E apertava. Ela sempre me sorria. Gostava de pintar a boca de vermelho forte. Você consegue imaginá-la? Muito branca, aquelas sardas nos ombros, a boca pintada de vermelho forte. Gostava de vestir-se de preto, também. Embora eu costumasse dizer que não era bom, absorvia vibrações, todas as vibrações, as energias. Boas, más, todas. Então a boca pintada de vermelho forte vivo ressaltava ainda mais. Qualquer coisa vermelho vivo, a boca, entre o preto do vestido e o branco da pele.
Ele tornou a encher o cálice.
— Você gostava dela?
— O que é coisa, gostar?
—Você sabe.
— Acho que sim. Embora não parecesse. Tanto, tanto tempo.
Bebi mais. Que não tinha importância. Gostar, o passado, a moça, os pés. Eu não podia ter memórias. Acho que disse isso em voz alta. Ou não era preciso, porque ele falou:
— Por que não ter memórias?
Os buracos negros, eu quis dizer. Mas fiquei quieto, desejando apenas ter um disco qualquer de cítara tocando para que nesse momento pudéssemos interromper a conversa para prestar atenção num acorde qualquer entre duas cordas, mais um silêncio que um som. Sempre podíamos ouvir a chuva, seu bater compassado na vidraça. Ou acompanhar com os olhos as gotas escorrendo atrás do roxo e do amarelo. De pontos diferentes, às vezes duas gotas deslizavam juntas para encontrarem-se em outro ponto, formando uma terceira gota maior. Mas talvez ele achasse tedioso esse tipo de diversão.
— Ter memórias — repeti.
Mas não era aquela moça, nem aquela a tarde, que tudo que foi de mim perdeu-se no inatingível centro obscuro desses buracos. Começava a ficar tonto com a bebida. Quis dizer a ele que a cidade não tinha mar, que eu apenas pretendia pintar a segunda vidraça de baixo para cima, para que os vizinhos não conseguissem espiar a minha vida. Quando pensei nisso tive a sensação esquisita de estar girando dentro e junto com uma agitada roda colorida. Subia e baixava — eu, a Roda da Fortuna — nos braços às vezes de um demônio sombrio vestido de negro, às vezes de um arcanjo dourado, em susto, em prazer, em nojo, em delírio. Quis dizer a ele que me havia afastado assim para que a Roda rodasse distante de mim, sem me envolver em seus volteios vertiginosos.
— Vim de longe — ele disse. — Eu vim de fora de ti.
Quis dizer-lhe ainda que longe estava eu, embora na rua de casas lado a lado, apertadas umas contra as outras feito pessoas com frio, mas por algum motivo precisei levantar. De repente fiquei no meio da sala, o cálice cheio numa das mãos, a outra solta no ar, esboçando um gesto que não era capaz de fechar.
Ouça, tentei.
E não sabia como continuar. Passa-me agora pela cabeça que os vizinhos poderiam reclamar das luzes nas janelas escancaradas, da energia excessiva saindo pelas janelas escancaradas. Bêbada, confusa, farpada. Mas não consigo me deter. Embora não conheça o ponto onde devo chegar, é para lá que me dirijo cego, aos trancos. Pouco importa o que poderia me afastar desta tentativa quem sabe inútil de recuperá-lo, ou o que trouxe consigo desde que veio e se foi. Perdi meu equilíbrio quando veio, e mentia meu equilíbrio antes que viesse.
Olhava para mim, ali estendido sobre almofadas. Um vinco, eu via atentamente, um vinco partindo seu lábio inferior, quase emendado com outro que subia da extremidade do queixo até a borda do lábio inferior, onde o vinco anterior unia os dois num só, duas gotas de chuva se encontrando. Acho que o aceitei inteiramente nesse momento, ao perceber os contornos do rosto que me olhava com estranheza, como pedindo explicações ou tentando explicar a mim mesmo para mim, que não me via.
— Você tem grades nos olhos — disse. Acendeu o cachimbo. Um perfume adocicado misturou-se ao cheiro de mar. — Elas estão quase sempre abertas. Não são suficientemente estreitas para prender alguém ou alguma coisa. Houve um dia em que você deixou alguém fugir por entre as grades.
Voltei a sentar. Lembrei do segundo quarto no andar de cima. Cruzei as pernas na frente dele. Queria vê-lo melhor, embora já o tivesse visto. Um marinheiro, confirmei sem compreender. Tirara os sapatos, o chapéu, vestia-se de branco, estava deitado nas almofadas à minha frente. Então transformou-se. Sei que é brusco dizer assim, mas foi exatamente assim. Gostaria de ter certeza de que realmente o vira deitar alguma coisa como um pó ou comprimidos na minha bebida, tisanas, antes de transformar-se. Mas não seria verdadeiro.
Eu estava um pouco tonto. As luzes da rua tinham começado a acender. Anoitecia. O roxo-amarelo dos vidros ganhou um brilho artificial quando me levantei para acender a vela no castiçal de cerâmica. Tenho horror a essas luzes que desvendam os poros abertos das pessoas, revelando sujeiras escondidas, mesmo que há muito tempo não as veja. Protegi a chama entre as palmas das mãos, mas quando me voltei para perguntar-lhe qualquer coisa como o que ou onde ou quando ou quem — ele era um grande gato cinzento me olhando com olhos verdes sobre a almofada cor de vinho. Espreguiçou-se lento, curvando as costas enquanto alongava à frente a pequena pata de unhas distendidas para depois cravá-las superficialmente, com tédio, com distraído gozo, na carne da almofada. Quando tornei a me abaixar, debruçando-me sobre ele, roçou o dorso quente contra as costas frias da minha mão. Apertei as frontes e os olhos com a outra mão. Ao retirá-la, o marinheiro me olhava.
— Tive outra visão — eu disse.
— Não foi uma visão. Sou muitos. — Sorriu. — Onde é o banheiro?
Acompanhei-o escada acima. Pelo corrimão, podia ver: aquela mão saindo de sob a manga branca era a mesma que segurava as asas da ave no ponto onde se uniam. Escurecia. Quis avisá-lo de que passaríamos pelo quarto vazio, e me debati, asas seguras no limite da entrada, tentando dizer-lhe que tinha sido ali. Então olhei para dentro e vi um anjo de grandes asas brancas e pés descalços sobre o piso riscado.
— Me olhas com olhos tristes — eu disse.
— Porque já me fui e nada do que poderias fazer agora eu conseguiria fazer novamente, então sinto pena — disse o anjo fechando as asas sobre o rosto magro.
Pairava sobre brasas incandescentes espalhadas pelo piso do quarto. Para não pisá-las com seus pés brancos precisava agitar as asas com algum esforço, mantendo-se em levitação, acima do fogo. Ele batia as asas suspenso sobre as brasas, um pouco ridículo. Tive vontade de rir, mas como uma ventania súbita tivesse invadido a casa, eu disse que tinha velas e mostrei a porta do banheiro.
Conhecia aqueles ventos. Armavam-se de repente além do contorno dos edifícios que eu via da janela do segundo quarto, depois desabavam paredes adentro, soprando por todos os cantos os fiapos dos montes de palha, as contas, as tiras coloridas. Dentro do banheiro havia uma moça de ombros nus cobertos de sardas, olhos pintados de preto, boca muito vermelha, seios expostos como duas pêras maduras, as pontas levemente avermelhadas de onde sobressaía o bico mais escuro que devia prendê-los à árvore. Quis tocá-los. Cheguei a estender a mão. Foi quando vi a cauda úmida de peixe emergindo da banheira para elevar-se, verde brilhante escamoso contra os azulejos brancos. Ela sorria para mim, sereia, me convidando, Ulisses. Como uma visão, mas eu sabia que não era nenhuma das imagens libertadas do buraco negro da memória. Quando tentei tocar seus seios claros, respingados de sardas, senti o vento das asas batendo do anjo preso no segundo quarto a me comprimir contra a parede de corredor estreito, e logo depois o interior sedoso de uma capa negra com dois caninos agudos de vampiro dentro de lábios descorados abertos num meio sorriso, aproximando-se lento das veias da minha garganta. Quis senti-lo assim, macio assassino penetrante agudo suculento afundar os caninos na minha carne. Cheguei a inclinar de leve a cabeça sobre o ombro, oferecendo o pescoço para que me tivesse mais fácil.
O vinho está quase no fim. A manhã vem vindo, não sei se conseguirei continuar contando. Naquele momento meu sangue escorreria para dar-lhe vida, essa mesma que não sei para onde levo, entre tantas quinas. Sinto frio, me debruço. O hálito gelado dele se aproxima das minhas veias, mas basta que eu suspire para que se transforme num cãozinho miúdo, inofensivo, descendo os degraus em direção à sala. Afago-o com as pontas distraídas dos dedos, manchas pretas sobre o dorso branco. Reconheço, estou em desequilíbrio, estou me distanciando cada vez mais. Faço este esforço até quem sabe alcançar um ponto tão remoto que não saberei jamais encontrar o caminho de volta, se existe um, e penso que não.
Ao pé da escada ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem o peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas. Quero perder-me nele, como o que nunca terei, mas quando fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejam, eu, ele, uma coisa única, minhas mãos apertam o caule estreito e áspero de uma palmeira. Um vento qualquer faz com que seus galhos balancem. Quando balançam então é como se eu visse o céu, planetas, cometas, constelações, objetos não-identificados, essa palmeira nua estendida contra um céu cheio de estrelas, lunar crescente às tuas costas, quero dizer, Aldebarã logo abaixo, Vega à esquerda, Arcturus acima, basta estender a mão. Resta no ar o sal perdido de uma distante maresia, no limite dos dedos, e em cada uma das extremidades uma estrela de sete pontas iluminadas, dez rubis incendiados como a lágrima na face do Cristo que perdi no dia em que a luz cessou.
Na base da escada, no centro da sala. Anoiteceu. Encosto o topo de minha cabeça de ralos cabelos contra o tronco seco da palmeira. Depois choro. Quase sem som. Como nas canções de miúdos arquejos, um estremecimento que faz o peito vibrar, elevando-se até os ombros. Sobe pela garganta, atinge os lábios, alcança a testa comprimida contra a palmeira como se quisesse ferir ou perfurar a si mesma. Ergo meus braços. Mesmo na ponta dos pés não consigo alcançar as palmas altas que balançam ao ritmo do vento vindo talvez de outras terras, mas certamente do mar presente nesse ar salgado que me faz contrair os olhos como antes, quando descia as escadas para abrir a porta.
Eu estava parado no patamar da escada quando ele me disse:
— Tenho sete formas. Navegue.
Abraçou-me. Tinha cheiro de mar. Do mar que não há nesta cidade.
Pedi que ficasse, como não ficou o outro. Mas não o suportaria, acrescentei a seguir. Sorriu. Como se nada do que eu pudesse dizer fosse capaz de modificar sua partida. Ainda chove, tentei dizer. Não importa, será melhor assim, repetia sua mão estendida. Passou-a devagar na minha face. Eu era uma coisa pequena, rastejante e sem Deus, caminhando no escuro lamacento à procura apenas de qualquer gesto como o toque de uma mão humana, devagar na minha face. Ele tocou. Calçou os sapatos, apanhou o chapéu. Eu quis dizer que poderia ocupar o segundo quarto — a segunda cama, a segunda vida — talvez para sempre. Eu estava tão vivo que qualquer outra coisa também viva e próxima merecia minha mão estendida, oferecendo. Estendi a mão. Ele não podia acei tá-la
Eu não devia estendê-la.
— O navio demora pouco no porto — disse antes de partir. — Um marinheiro desce, olha a terra, às vezes deposita algo, e logo torna a partir.
Seus olhos tinham a r do mar. Tinham a cor exata de quem por muito tempo, todas as horas, durante todos os dias de muitos meses e anos, olhou detidamente o mar. Conquistara esse verde móvel, inquieto, esse vagar. Tocou de leve minha mão estendida. E se foi. Ainda chovia. Fechei a porta às suas costas. Por entre os roxos e amarelos da pequena vidraça vertical, podia perceber a silhueta de alguém se afastando. Dentro de uma noite de sábado, não de agosto. Era novembro. Bebi outro gole de conhaque. Fui escorregando para o fundo, no meio das almofadas. Amanhecia. Na casa em frente, os ruídos tinham silenciado. Seria um longo domingo. Não estava triste, mesmo assim recomecei a chorar enquanto ouvia outra vez o aviso guardado para sempre na memória das paredes:
— Abraça tua loucura antes que seja tarde demais.

Caio Fernando Abreu
"Marinheiro"

Let's Dance




tempos estranhos esses quando a gente fica ali olhando a porta e imaginando a campainha tocar porque estamos dentro e quem tá fora não sabe se quer entrar estando a meio caminho de um corredor longo que parece mais a barriga de uma cobra escuro e medonho e o braço não responde e o medo pesa a mão que nem o relógio grande que te deram para marcar a hora de ir embora e que sempre atrasa quando você quer chegar

tempo estranho sim esse que diz tic e nunca tac que bate sozinho e que você reclama puxa queria que não fosse assim e sonha acordado ou acordada que eu não sei bem qual é a tua preferência mas de qualquer maneira a matéria do sono é a mesma é você ali encostado ou encostada com o ouvido no muro ouvindo um coração de pedra bater que nem marreta derrubando tudo que é defesa que você ergueu e você ri e tá feliz porque alguém resolveu te deixar em caquinho e não inteiro e você tá contente sim porque o que não te mata te faz sorrir nem que seja o riso do banguela porque quem diz que falta dente diz que tem buraquinho pra pessoa entrar

tempo estranho esse que se você vive dormindo para nunca se realizar e tem sempre alguma coisa pronta para escrever no teu caderninho do que não foi e pensa puxa vida queria que não fosse assim mas tem a letra pronta caneta preta para anotar tudo de ruim e fazer serão com toda a gente que é como você também é pedreiro ou pedreira e ergue parede alta com concreto e vidro pra ver o que está lá fora mas te preservar daquele vento frio que de vez em quando bate e termina na espinha levantando a escama

tempo estranho esse tempo e ele nunca passa se você não passar por ele primeiro e chegar ofegante até à papelaria do moço ou da moça que eu não sei que papelaria tem perto da tua casa e dizer eu quero uma caixa de lápis de cor e voltar correndo até em casa e no teu baú tem um álbum preto e branco que na verdade é preto e amarelo porque papel quando fica velho fica assim meio doente quando não vê dedo de criança e aí você começa a rabiscar tudo no começo meio sem jeito meio que com vergonha e borra tudo fora do desenho naquela ânsia de início de fazer tudo direitinho o urso até sai assim meio marronzinho que é o jeito certo de fazer as coisas e no começo você pensa que tem que fazer tudo certo porque fez errado até agora e tem certeza que o errado não funciona

mas aí quando o marrom acaba você pensa agora vou lá correndo de novo e pergunto para a moça ou moço se tem mais marrom mas aí pega o amarelo e pinta uma orelha e acha engraçado e agradece a preguiça que teve de correr tudo de novo porque geralmente quem corre não presta muita atenção por onde está indo mas só pensa para onde vai e chegar logo nessa euforia de marrom e aí quando descobre amarelo quer pintar sol em vez de bicho e se esquece porque deabos gostava tanto de tudo que não fosse primário e por isso bonito por ser simples ou o princípio de tudo

e os dias vão passando e você vai experimentando até um dia que corta a mão no papel e descobre que vermelho também é cor mas em vez de parar e pintar tudo de sangue segue rindo porque sabe que papel não corta fundo o suficiente para atingir o nervo que é o que te faz colorir e rir ao mesmo tempo

e o tempo passa e o muro caiu e no lugar tudo agora é papelão azul amarelo vermelho o verde é a cor da grama com caminho para gente passar sem cerca nem campainha e quando você menos espanta não tem só um mais várias pessoas ali paradas algumas procurando ainda a campainha outras sem saber o que fazer quando não tem muro mas o certo é que entre eles ou elas que eu já disse que não sei o que você gosta mesmo mas o certo e que tem uma e não precisa mais que uma que seja entra e no meio da sala chega e te pergunta ei menina ou menino quer dançar e aí é quando você larga o lápis e o papel e descalça ou descalço aprende o ofício de virar minhoquinha no jardim dos outros

tempos estranhos estes mas com certeza ainda é tempo de mudar muita coisa começando por você e por mim pois se faltar vermelho eu tenho azul e amarelo nunca vai faltar que amarelo é sol e o oposto de se estar sozinho e que a nossa vida seja um eterno guache porque quem diz água diz me lava e aceita que nem tudo é certo mas não deixa de ser arte por isso

<3

Fado Tropical



Sabe...
No fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente...
Chora.

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa

ευχαριστώ



Τι είναι αυτό; Δεν ξέρω... Δεν καταλαβαίνω, but give me sometime.
Θέλω αυτό, Εντάξει; But give me sometime.
Now what I can say is Ευχαριστώ and that Παρακαλώ in my life.

Γειά σου, see you in Δεκαπέντε Ημἐρασ.

Não, não pára.



Aprende uma coisa, de uma vez por todas:
Se existe uma coisa nesta vida, nesta nossa vida.
Que defina melhor esse caldeirão que é
Tudo que eu acredito.
É que ninguém e nada nesta vida
Vai conseguir, ao menos
Um pedacinho da carapaça que me cobre.

Eu sobrevivi, sobrevivo e vou sobreviver.
E mais do que isso
Eu vivi, vivo e vou continuar vivendo.

Então, meu bem, sinceramente...
Arruma algo melhor o que fazer

Tenho idade o suficiente
Para ter heróis lindos que
Lembram-me todos os dias
Da espessura da minha própria pele

Obrigado e seja feliz.
Ou ao menos, seja menos
Para ser um pouco mais

Fica a dica.

Duas Luas



sonhos. eu não consigo imaginar um lugar melhor para estar na vida, em muitos momentos. tem quem pregue a ditadura do real e não sabe o que seja o real. o real é água, peixinho. mas eu gosto de lembrar que até peixe tem asa, logo, nada na vida é tão estático assim.

eu tive um sonho, e não foi só eu. sonhei com duas luas em um céu azul, e elas dançavam na minha frente. sempre tive sonhos assim. sempre sonhei com mundos distantas, de céu laranja, construções imensas, erguidas no ar. já sonhei com lugares tenebrosos, com criaturas animalizadas, mas carentes de muito amor. já sonhei contigo, e até com ela sonhei, mais de uma vez. já sonhei sonhos que antecipavam o futuro. já sonhei com pessoas me ajudando a desenhar uma letra difícil no papel. sonhei que falava línguas mortas, sonhei com pessoas mortas falando um linguagem viva como o fogo. tive sonhos em forma de avisos, tive outros em forma de carícia e abraço. tive sonhos eróticos, e outros singelos, em forma de coração.

mas esse sonho não foi só meu, e por isso eu senti algo estranho nele. não sabia explicar, nem aquela pessoa que sonho comigo também não, mas ficamos juntos tentando entender as luas, duas, no mesmo céu. e fomos obrigado a concluir coisas gigantescas, cheias da magia dos calendários antigos. essa pessoa não é sangue do meu sangue, mas é alma da minha alma. é aquela gente que você encontra na vida, sorri e que diz "oi irmão" e tudo volta a fazer sentido, a roda da vida volta pro seu eixo, e o corpo de carne abre janela pro espírito que acena lá de dentro e convida a entrar. ela entrou, e tá aqui. e quando ela disse "sonhei" e me falou das luas no céu, que dançou com elas também, o que mais eu podia pensar que algo grande ia acontecer?

duas luas no céu é o anúncio do absurdo que entra em órbita, é a chegada de um tempo onde tudo vai perder o sentido pequeno e vai se banhar no mar de peixe velho e sabido. esse alinhar começa contigo e comigo, com ela e com ele, com as nossas histórias, suando e expelindo tudo de ruim para agora respirar perdão e tudo tá bem. mas isso não para em mim, nem em ela, é compromisso de todo mundo. é como se santo agostinho lá de cima risse para todos nós do alto de sua fé, e desepejasse raios de novas formas de ver a vida. se podemos ter duas luas, porque não podemos ter corpo e espírito, duas realidades do mesmo ser no mesmo céu de uma existência estrelada de amor, compreensão e fim de semana juntinho? se a vida tá dando o gato em astrônomo, que é amigo da matemática, porque não daria também no filósofo e no pensador que é filho da incerteza e do nada sei? meu corpo, teu espírito, teu espírito no meu corpo, tua presença quente a palpitar cada linha do que escrevo e chamo minha vida. a morte do ego, a era da persona. do partilhar, do viver. a lua ficou esse tempo todo sozinha no céu, e todo mundo achava que era porque era namorada do sol. agora veio poesia e sonho e tudo ganha um novo sentido, porque na verdade, seu amor voltou, para a frustração da matemática dos caretas.

duas luas sou eu e você meu bem, brilhando no céu de uma nova amizade. é o amor renovado pela dor, tempo e saudade de falar besteira junto. duas luas é a certeza que noite agora não é mais desculpa para ficar no escuro. duas luas é oportunidade dupla, de reencontro, de certeza que apesar de parecer que vagamos astros solitários na órbita do que foi mal-dito, tudo no universo gira, até ele mesmo gira, o que acaba colocando as coisas novas em lugares novos junto com os novos pensares e formas mais serenas de dar pirueta, que não deixa ninguém tonto.

duas luas é o tempo que chega pra mim, pra ti, pra ele, pra ela. loop do fiat lux pra nos lembrar o quão poderosa são as forças que pairam sobre e em nós.

duas luas, porque o impossível é nada.

A Midsummer Night's Dream

(foto: minha -> parque em newham, londres)

queria só te dizer que a sua não-presença se faz notada, e por mais que tua cabeça dê mil voltas, eu te digo que houve tempo suficiente para darmos mais de mil passos juntos, que é o que conta no final

queria te dizer que tudo foi bom, porque foi tudo sem querer. acho que nunca vamos ter uma explicação pro acontecido, tanto que seguimos, e o que foi pode ter ido mas enquanto era foi sincero

queria te dizer que nada foi pouco, e me fez muito. basta dizer que revi minha visão sobre aquele poema, e relendo o poeta me vi beijando o papel, grato por essa eternidade que em nós durou e deixou marcas

enfim, o que eu queria te dizer era isso, ou é ainda... de qualquer maneira, antes de ir, só mais uma coisa:

obrigado, pois tua teimosia de andorinha fez o verão


Paz e muito amor para ti.

um só



Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

Alvorada, morena.



Apesar de tudo, de nada, de você, de mim, de ninguém.
Alvorada.

Sigamos em frente.
Beijos e paz.

Tales of Braves



You thought the leaden winter would bring you down forever,
But you rode upon a steamer to the violence of the sun.

And the colors of the sea blind your eyes with trembling mermaids,
And you touch the distant beaches with tales of brave Ulysses:
How his naked ears were tortured by the sirens sweetly singing,
For the sparkling waves are calling you to kiss their white laced lips.

And you see a girl's brown body dancing through the turquoise,
And her footprints make you follow where the sky loves the sea.
And when your fingers find her, she drowns you in her body,
Carving deep blue ripples in the tissues of your mind.

The tiny purple fishes run laughing through your fingers,
And you want to take her with you to the hard land of the winter.

Her name is Aphrodite and she rides a crimson shell,
And you know you cannot leave her for you touched the distant sands
With tales of brave Ulysses; how his naked ears were tortured
By the sirens sweetly singing.

The tiny purple fishes run lauging through your fingers,
And you want to take her with you to the hard land of the winter.

Dance Day.



Por que?

Porque eu acho que relacionamentos são meio filme cafona: começam do jeito errado, no meio você quer que dê certo ao mesmo tempo que acha que vai terminar uma merda, e no final, sem perceber, contagiou o salão inteiro sem precisar beijar a mocinha.

Feliz dia dos relacionamentos para você, seja com quem e como for.

Stage Door


de todas as coisas que não estamos preparados a maior é a de assistir o espetáculo onde aquela pessoa que protagoniza os melhor daquilo que nem sabíamos o que era se transforma em tudo aquilo que nunca pensamos fosse. findo o ato, caído o pano de ísis e descoberto o rosto sério da deusa, ficamos ali meio que procurando uma pedra para sentar em cima. filósofos da última hora, abrimos e fechamos os bares ao redor do já-te-disse-acabou na progressão monocórdica de mesma pergunta de sempre: por que? 

o engraçado disso é que você e eu sempre nos achamos platéia. comassim? explico: achamos que tudo que aconteceu foi um monólogo encenado por ela, essa-pessoa, e que a nós coube o papel de criatura ouvinte, nada versada no teatro dos relacionamentos, que se senta meio de banda na cadeira com um olho na porta e meio ouvido na ladainha da dita-cuja. a cada susto que lembramos, a cada palavra áspera, e até mesmo cada gota de suor do olho cansado do sempre-a-mesma-coisa, pensamos tudo fazer parte da arte de quem nos colocou ali como vítimas-sentadas de um roteiro bem elaborado pelo Sr. Destino para ela, tua atriz.

é quando cai o pano. e aí meia volta em todo mundo e foste à procura de algum camarim. e no caminho tens teu primeiro susto de Walter Murray: teu nome na porta, junto ao dela. entras e vês que pendurado em um canto estão teus casacos surrados e todas as surras que deste nela, entre cabides e anotações carinhosas para despistar os gerdarmes. teus chapéus e tua cabeça oca estão dentro de uma caixa junto com as lingeries e as auto-promessas dela de que dias melhores virão. tuas calças, sim porque apesar de tudo te dizem homem, estão ali, entre os vestidos, entre as coxas invisíveis de quem se abriu mil vez mil em intimidades, sussurros e gemidos e arranhões, que é como a pele diz que ama, para ti. andando um pouco mais, tu vês que em cima da mesa dela, o único lugar dela em meio à bagunça e à mistura dos-que-eram-dois, ela guarda a lembrança de te assistir dormir e a lágrima que derramou quando te deu aquele primeiro beijo. 

a cabeça fica em chamas. comassim? explico: quem estava sentado derrepente é posto de pé. e não bastando isso, é educamente conduzido para fora do recinto. à porta vomita-se impropérios, ameaças balzaquianas: iremos aos jornais; mancharemos teu nome; perseguiremos-te com toda a força de nossa ignorância. e assim fazemos. queimamos o óleo da meia-noite consumidos na cegueira que achamos ser do momento-culpa-dela. oscilamos entre a passividade patética do mea maxima culpa e a postura agressiva-frustrada de repetente pra quem tudo é motivo para tentar agredir quem cometeu o crime de passar de ano e seguiu em frente. nunca um meio termo, nunca um senão, nunca um pare-para-pensar. tudo é dor quando todo odor que queremos sentir é o da carne podre, cadáver zaratustriano que arrastamos em orgulhosa pose maquiavélica. 

passa o tempo, passa bem de-va-ga-ri-nh-o o tempo. cada segundo tic-é uma lembrança-tac do relógio que registra a lentidão de tua burrice de autor da província de sempre-esteve-longe. acreditas então ser toda a humildade ir tu ao palco, chorar as lágrimas de ex-crocodilo. entranto, uma vez fera não se perde a bestialidade: ao primeiro sinal de dúvida dela, gritas e faz dos pulmões veículos para loucura, que é justamente o amante que a convenceu a ir para qualquer-lugar-longe-de-ti. novamente te convidam para fora, desta vez com o aviso de que-não-se-volte-mais-fazendo-o-favor.

passa o tempo, passa rápido. desta vez tua mente tem todo o tempo do mundo para se encher de novos e velhos clichés. pouco a pouco viras repasto das teorias que teu orgulho repele, pois aceitas tudo menos ser tido como o-pobre-doente. louco sim, estúpido sim, inconsequente também... mas doente são os outros, inclusive ela, porque só assim alguém ia querer te deixar. e aí é quando aposentas a pena e viras colecionador sinistro. ao fundo do teu escritório passa a existir uma ante-câmera secreta, a qual a senha para entrar é o nome de uma das esposas de uns dos amigos de Byron. lá dentro tudo é escuro. jarros e mais jarros de lembranças boas e ruins se amontoam desorganizadas entre garrafas de rum e outros tônicos da alma culpada. porém, ao fundo e de maneira assustadoramente metódica se encontra o agora-trabalho-da-tua-vida: amontoados os corpos das tuas amantes-de-depois-dela, cada uma a faltar um pedaço. em cima da tua mesa, e costurado com as linhas de tuas projeções e idealismos, ela, a tua-pessoa feita de retalhos e enxertos das outras-que-não-eram-toda-ela. monstro-da-ausência, constructo da culpa, que em lugar do peito tem um buraco, a sempre-faltar um coração.

de autor à dor, o caminho foi traçado pela mecânica de mão indolente e violenta. assumir isso é o primeiro passo para recuperar a alegria de viver em qualquer lugar que seja presente. o segundo é afastar a culpa que te faz andar de joelhos e aprender a ficar de pé para ter a coragem de olhar tudo que houve nos olhos. terceiro, assumir que o-que-era é agora um problema, sério. a solução dele? silêncio. não do silêncio omisso, mas o silêncio ativo que é o começo do rio que desemboca no mar do sinceramente-me-perdoe. aliado a isso uma boa dose de conversa especializada com gente especializada, pois apesar de tuas voltas, tu continuas doente. reconhecer isso é imolar o teu orgulho, que por sinal, foi a mão que assinou a tua sentença de morrer longe, como cachorro. 

o resto é com o tempo. à primeira oportunidade que tiver, caso saiba que ela vai se apresentar em algum musical novo juntamente com algum novo-a(u)tor, peça teu emprego de volta no jornal, e faça como todo bom crítico: não vá ver a peça mas elogie! sim, não vá porque tu ainda és persona non grata, facie tudo que foi feito, mas mesmo assim aproveite para dizer que ela estava sensacional; primorosa; linda em seus trajes de sorrisos. farás teu trabalho ao mesmo tempo que ninguém pode te acusar de faltar com a verdade, não é mesmo?

agora é sempre o momento para se deixar de lado a prosa e se falar do coração, já que a literatura anda tão cheia de hearsay's metafóricos: ser bom com frases não faz ninguém mestre das entre-linhas. perdoar e pedir perdão quer dizer perdoar e pedir perdão, duas coisas separadas e totalmente independentes, e que, dizem, curam muita cardiopatia. peçamos perdão, por tudo. por cada gesto impensado e por cada mancha de sal em estrelas azuis. essa-pessoa continua e sempre vai ser a maior educadora que se pode ter em vida. pensar nela deve fazer o dia ficar melhor, acompanhar o seu progresso é a forma que se tem de todos os dias de dizer o silencioso muitíssimo-obrigado-por-tudo-que-tu-me-deixaste.

no mais no mais, seja feliz, pois tanto o errado quanto o certo merecem.


(fim do ato)

Fatos a se Consumar



tá certo papai, eu sei disso. sei que em cada esquina tem alguém te oferecendo uma muda de roupa suja tua para tu lavares, que salto alto e ladeira não combina. tô sabendo. tá dito também que a gente é confuso dessa confusão que não soma um com um com medo de dar três, que dizer do quatro! tá falado. aprecio mas me reservo em direito e se desconfio é porque eu nunca vi nada comigo começar que não fosse de cabeça para baixo. certo na vida só tenho a minha hora de morrer: que vai ser numa manhã nada tranqüila de um sábado de março, porque todo mundo vai se espantar menos eu. 

sim, eu liguei no telemóvel da gaja lá e ela ficou de me falar o que tava errado. fui mas voltei chateado, obrigado a rasgar a cuíca porque tudo que eu dizia terminava com "ô pá, és parvo!" fala sério rei, quer dizer que a moda agora é ser normal? todo mundo quer a sorte de um amor tranqüilo, desses de domingo no parque e cachorro com fralda. desses de final de semana no algavarve com foto editada, sépia, para dizer pros amigos que "foi assim desde sempre". tá certo... exagerado né? tá bom...  no dia que tédio encher copo d'água vai ter gente me ligando para ser salva-vida da sede de quem não me esqueceu. e aí cê vai jurar que eu faço troça.

sempre fui azarado. nunca ganhei rifa, prêmio, sorteio nem beijo de boca que não me mordesse depois. nunca fiquei pra amigo, nunca tive pinta de herdeiro de comida requentada e sou sempre capa da revista. passa o dia, o mês e o ano. passa até década, que daqui a pouco vou me dar o luxo de fazer bodas de sacanagem que fiz no passado. fala mal, fala bem, fala mal de novo, aí lembra, e só fala bem. eu fico mal, fico bem, faço as pazes, faços as vezes, mas sempre faço bem, lembra? sou o pior, sou o melhor. para a amiga eu não presto, pro amigo, exemplo, e pro namorado sou história, coisa que já passou benhê, fica tranqüilo! fique sim sócio, comigo ao menos pode ficar...

e aí é tarde na quinta, você chega e puxa conversa. acha engraçado eu não dar a mínima idéia para toda essa conversa que é o contrário do que eu digo e acha estranho eu ter saudade da Amélia, a que era mulher de verdade. ah parceiro, o peito dói né? claro que sim! mas fazer o que, se toma uns copos e a vida segue. meio-dia aparece um outro amor, menor, maior, e a gente se vê de novo enrolado com meia-dúzia de coisa para dizer que não sabe ao certo o que é ainda. o problema? o problema é a morena pai, não pára de nascer no mundo! todo dia tem gente fazendo morena, morena aqui, morena ali... e aí? já me conformei e minha reza é a reza pro santo para que não pare de aparecer dona da minha vida. dizem que a de cabelo preto e cintura fina é para casar, oxalá! Todavia e até lá a gente se reúne ali no bairro para cantar a beleza de quem passou, de quem vai passar... e claro, daquela que um dia fica sem querer ficar mas acaba te acabando!

sim, já se viu o que vou te pedir: não me rogue praga! camarada que você é, te peço que me deixe aqui com meus i's sem pingo, meu dia de domingo e a cerveja. não me peça certeza, não agora, porque não me falta vontade dela, mas ainda não me apareceu aquela, minha Dom Pedro I que do alto da sacada vai me tornar terra independente dos favores da baixa. Bonito né, mas acredite, nada disso vem fácil, nem é tranqüilo. Gostar é ofício de encrenqueiro, paixão é chave de cadeia e amor e a sentença de passar o resto da tua vida procurando sentido para as coisas. Feijão, conta e toalha molhada, e o gostoso de tudo isso é não ter ordem alguma, para tudo virar caldo pra panela.

eu sou azarado, encrencado, mal resolvido, mal querido, nada certo, improvável e caótico, entretanto, tenho direito à minha melodia. vou ficando por aqui e te deixo com esse meio dedo de mim, morena, que já te dei assunto para pensar a vida inteira, ie. esta semana.

no mais, a boca está aqui: só falta a loucura. eu quero ver!

smack!

Pax Lusitana



You know what they say: o mundo é um quarto de hotel no Rossio. Roda a bola e eis que toda a gente vem dar aqui a meio caminho da Baixa, ouvindo o Chiado dos carros lá embaixo e do povo giro que acha fixe fazer barulho de manhã cedinho, inferno de quem sobe a colina e fica até mais tarde tomando vinho no Alto do Bairro, o monte dessa preguiça criativa de quem tem alguns escudos, antiga moeda das presentes imperiais.

You know what they say, e eu não podia ser diferente. Gosto de não acordar cedo e olhar o Rio de noite. Gosto de pensar que mereço algumas férias depois dela, dela e da outra. Aqui eu sinto o gosto, pela primeira vez, de escrever algo que não seja o passado. Sinto essa alegria de viver em um tempo que é tão antigo que nada disso existia: a insustentável leveza do paralepípedo que se desmancha no ar. A mesa n' A Brasileira, do lado do Fernando, com quem converso todos os dias, não todos que tem dias que não aguento o jeito londrino dele, que gosta de reclamar do tempo das coisas, da chuva e dos pombos que têm essa eterna mania de fazer piada de gente que fica parada no mesmo lugar. 

You know what they say sobre os bons costumes. Alguns momentos são de uma simplicidade tão crua que faz o homem ajoelhar-se sobre as calças de linho: um cálice de vinho da madeira é toda a doçura do mundo em uma nota de 5 euros, a mais pequena delas por sinal. A mão corre pro bolso do terno inglês, o dedo ajeita o óculos de armação italiana depois de acertar a volta do bigode, e a boca é o começo do túmulo das uvas que alguém colheu para colorir as primaveras da Rua Garret, onde todas as verdades se dissolvem nos taninos de uma tarde tranqüila.

You know what they say: Camões é o porteiro do turno da noite. Fica ali em sua praça, ao pé das travessas estreitas e das tascas. Um pé sucede o outro nas marchas pelas calçadas: aqui a bohemia requer preparo físico. E os atletas da boa mesa se esbarram sem se tocar, respirando fundo frente a escolha do dia: bacalhau ou polvo a lagareiro? Hoje vou D'ouro ou algo mais ousado, que sabe um frutado do Algarve? Sentados, somos todos oráculos, antítese da Esfinge: ao primeiro toque revelamos alegremente nossos segredos. A boca fala algo do estômago educado, o hálito é medido em cifras invejáveis. Ninguém é estrangeiro, ninguém é local e todos são senhores. Nunca temos opiniões, e sempre sugestões.

You know what they say a respeito da necessária gratidão a isso tudo. Sim, sou, tanto e muito. Só não me peça para me sentir culpado porque experimento a chance de ter paz em muitos anos. Porque depois de uma vida de não's, agora sei o gosto do sim. Não me afeta essa afetada crueldade pseudo-calvinista dos que carregam a peçonha por baixo do manto, ao mesmo tempo que saúdam César, como que em júbilo antecipado dos idos. Seguimos firmes, mão no leme e olho na terra, sempre às vistas. Pedimos apenas licença para sacudir a poeira e rir desse riso leve de quem finalmente cruzou o cabo da boa esperança.

You know what they say, e hedonismo é a derrapada na curva do aprender a gostar de si mesmo. Eu acho que tamanha preocupação é desconhecimento do autor da assinatura das faturas. A distância e a tranquilidade de bons dias cicatrizam feridas, trazem novas luzes para velhos candeeiros e inclusive têm o poder de te deixar mais humilde. Se hoje eu não ligo para ti e para ti, e não escrevo para ti, é porque sou pai de uma nova calma de espírito que só o estar longe do outro lado de tudo me ensinou. Se hoje hasteio alto minha bandeira e busco novos portos é porque tenho do lado de lá de quem ficou a amizade sincera e o incentivo dos que acreditam em mim. Por isso, abençoem minha caravela e rezem por minha viagem. Tudo isso vai voltar em dobro para você, e você e você, na forma de alguém que sempre carregará o respeito e a gratidão por tudo, dentro de si e direcionado para vós.

Por enquanto eu tenho meu escritório na Rua da Barroca, vários números. Estou sempre por lá, abraçado com pessoas, frutos do mar, da parreira e cervejas. Dá para me ouvir rindo lá do Cais, Sodré diria. Mais uma vez, obrigado por tudo, mas por favor, licença que quero ser feliz.

You know what they say, Deus fecha uma porta para abrir uma janela, e eu sou testemunha disso: quando fecha o Portas Largas e acaba o samba, a noite continua no Janelas do Atalaia. 


Um beijo para todas, e tenham uma excelente vida.