Salve Jorge



Eu avisei, em outro momento, que o mundo é redondo, nada oco, com recheio de terra e tinta azul. Disse também que longe é sinônimo de não tardo, que tô logo ali, basta dormir. Alertei para a incoerência de achar tudo sem querer dar nada, de não esperar e querer que eu volte. Falei do que tinha dentro, do que via fora, e até do que não entendia. Fiz macarrão de madrugada para esperar que chegasse a musa daquilo que queria te dizer. E apesar de tanta cerimônia, e falta dela, você não acreditou... e agora, depois do fantasma a certeza: no more talk of darkness.

Só quem abraçou um timão sabe da alegria de dia de verão. Só quem viveu anos no escuro de si mesmo aprende a valorizar a luz que chega no sorriso que cruza o mar. Só quem ficou surdo de tanto que gritou aprecia o silêncio macio que ecoa na tua voz, cotonete do túnel da alma. Ter-te, mesmo que em esperança, sinônimo de futuro, é melhor que brigadeiro, ou lagosta. Como é bom todos os dias não ter certeza de nada, desse mistério de óleo de linhaça que banha o que está por vir. Mil vezes a ignorância de amanhã, com o seu susto de estou chegando, do que essa falsa alegria do lá e aqui. Não me resta nada agora, a não ser sorrir, com esse sorriso bobo de quem vê a porta se abrir sozinha.

Não é o momento de falar da minha luta, do meu sangue, da espada nua e da calçada. Não é mesmo momento de cantar o Bojador, nem mesmo rir da dor. Não é a hora de parecer soberano, de rir do encanto do "eu te disse". Naaaada disso. Eu quero mesmo é ficar calado, nesse quietismo estético de terceiro andar. Eu me contento com a janela aberta, com o vento e com o inverno que, subitamente,  deixou de ser frio. Tudo que quero é pingar café no jornal, e nesse espetáculo de gota escura, prestar minha reverência ao não dito, ao ainda não vivido, e ao que está por aí, que apesar de aportar em duas semanas ou três, ainda é caminho.

Seria incoerente pensar diferente agora, eu que gritei junto como velho no Restelo: Trípoli acabou se mostrando meio pedaço de chão entre onde estou e o de onde vieste. E para todo mundo que me esperava Marco Polo com a bolsa cheia de fogo de artifício, eu acabo sendo um embuste: eu gosto mesmo é de fitar o mar, de preferência de noite, quando ele tá quentinho. 

Não, eu não abandonei o exagero, mas guardo ele para a hora certa: mão na outra, cabelos e o enterro da palavra. Sou Alexandria por dentro, farol-em-olho de tua embarcação. Mas dessa luz suave de cobertor grande em cama pequena para nós dois: não discrimina nem mesmo dedo mindinho, por miudinho que seja.

Cá estou e esse meu ofício: sigo vigia.  Semanas para a promoção e tudo o que tenho a dizer aos colegas de profissão é meu muitíssimo obrigado. Mas agora, com vossa licença e a benção de Jorge, en sha Allah, vou em frente.

Salve!

Mais uma Canção


The weight of the world
is love.
Under the burden
of solitude,
under the burden
of dissatisfaction

the weight,
the weight we carry
is love.

Who can deny?
In dreams
it touches
the body,
in thought
constructs
a miracle,
in imagination
anguishes
till born
in human--
looks out of the heart
burning with purity--
for the burden of life
is love,

but we carry the weight
wearily,
and so must rest
in the arms of love
at last,
must rest in the arms
of love.

No rest
without love,
no sleep
without dreams
of love--
be mad or chill
obsessed with angels
or machines,
the final wish
is love
--cannot be bitter,
cannot deny,
cannot withhold
if denied:

the weight is too heavy

--must give
for no return
as thought
is given
in solitude
in all the excellence
of its excess.

The warm bodies
shine together
in the darkness,
the hand moves
to the center
of the flesh,
the skin trembles
in happiness
and the soul comes
joyful to the eye--

yes, yes,
that's what
I wanted,
I always wanted,
I always wanted,
to return
to the body
where I was born. 




- Allen Ginsberg

Dejà Touché


Eu queria saber um jeito mais simples de complicar as coisas, de contar para 2009 tudo que contei para 2008. De dar risinho de banda, de apagar nome do celular. De deletar o orkut, msn, escrever carta à mão e só assinar recibo. De não aparecer em foto nem saber nome de monumento. É... queria isso tudo sim, e queria desse querer que a gente tem por ficar confuso quando pensa em ti.

Tô loco não fia. Antes eu fosse frase feita, punho do Machado. O problema (porque para a física moderna, ainda é um problema) é esse tal do te-querer-bem. Explico: tô gostando de ti pra caraças, tais a saber? O problema (ele, ainda) nem é esse (não?), o problema (ah..) é que isso é verdade de quadro-negro: fica lá, quase fórmula, variável, noves fora. Sem problema (hã?), pensei comigo, rasgo a toga, tiro a roupa, me jogo na cama e faço peso em cima de ti, 83 kgs de verdade nua e crua: eu te amo. Legal é assim, porque quem cuida, sua. Mas aí, vi que o problema (dela?) não era falta de giz, nem de roupa, mas de boca: quem tem, vai, ou devia ir, ao menos, mais.

Marcha-ré na caravela, dos panos não bebo os vinhos, foimaussouromano.com. Sim meu bem, sou total a favor do desassombro, e não me impressiono com filosofia de parquímetro. Tô aqui mesmo, e aqui não é nada mais que esse lugar que me elegeu para me dizer algo que eu ainda não escutei porque confundia letrinha. Distância é mentira de olho, que é redondo mas não tem essa sabedoria de bola, que é o mundo. 

Por isso, foi só não escutar tua voz, foi só tu me dares o ensejo de praticar a imaginação (essa vilã, sede da metafísica), que num passe de mágica coração saiu nadando. Nada enxuto foi se esparramar ao teu lado. Escutou o cheiro das tuas palavras, anotou o gosto do teu "querido" e veio de volta em vôo fretado, que tá frio, dá licença, inverno aqui é coisa séria. Chegou rindo e tá até agora ali no sofá, com jeitinho de almofada de veludo.

Mas, apesar de não pesar, tens essa tua mania esquisita de matéria obrigatória: estatística aplicada ao que criatura? Sejamos irrazoáveis s'il vous plaît. Quando não é isso, é essa coisa de verão em Harvard: sempre um riposte, sempre um deboche no gramado das pequenas coisas que eu plantei para a gente rolar por cima. Tudo que eu queria era pensar em leite quente, lua, nua. Tu achas divertido ficar brincando com brincadeira séria. Confabula sozinha, faz tabuada, e depois de se confundir todinha com o simples, volta para casa sozinha, confia no tempo (pouco) e fica me dizendo louco, eu, logo eu que não faço a mínima questão de tanta questão.

Pensar em ti é uma das partes boas do dia, tanto que em vez de descer em picadilly fui bater lá depois de green park, que eu achava ser a porta da tua casa, cemitério do tá longe. Penso com a parte boa das tripas, e com as danadas também, que sou filho de plutão, aqui tá frio, pensar esquenta, dá licença, obrigado. 

O que me resta por agora é isso. Sei que achas um tanto de coisas de mim, mas isso tudo é porque não encontraste em mim o que, em verdade, está contigo. Não tenho nada melhor para oferecer senão meu respeito, meu carinho e minha adoração silenciosa. Como mármore velho, eu só pareço estar fitando o nada. Tenho você aqui, e apesar de morena, vou te dar essa chance.

No mais, dê um abraço no futuro quando o ver de novo. Aproveite e dê também um beijo, uma banda e uma cama: eu vou adorar.

Xêro e até daqui a pouco.

Atherton Road to Everywhere

foto: nossa, the tower bridge



(...)
Above all ryvers thy Ryver hath renowne,
Whose beryall stremys, pleasaunt and preclare,
Under thy lusty wallys renneth down,
Where many a swanne doth swymme with wyngis fare;
Where many a barge doth saile, and row with are,
Where many a ship doth rest with toppe-royall.
O! towne of townes, patrone and not-compare:
London, thou art the floure of Cities all.

Upon thy lusty Brigge of pylers white
Been merchauntis full royall to behold;
Upon thy stretis goth many a semely knyght
In velvet gownes and cheyn{.e}s of fyne gold.
By Julyus Cesar thy Tour founded of old
May be the hous of Mars victoryall,
Whos artillary with tonge may not be told:
London, thou art the flour of Cities all.
(...)
- William Dunbar

REMEMBER NORMANDIA!

Life Should be Stereo



You can't manufacture a miracle
The silence was pitiful-that day
And love is getting too cynical
Passion's just physical-these days
You analyse everyone you meet
But get no sign - loving kind
Every night you admit defeat
And cry yourself blind

If you can't wake up in the morning
'Cause your bed lies vacant at night
If you're lost, hurt, tired or lonely
Can't control it try as you might
May you find that love that won't leave you
May you find it by the end of the day
You WON'T be lost, hurt, tired or lonely
Something beautiful will come your way

The DJ said on the radio
Life should be stereo - each day
And the past that cast the unsuitable
Instead of some kind of beautiful
You just couldn't wait
All your friends think you're satisfied
But they can't see your soul, no, no, no
Forgot the time feeling petrified
When they lived alone

If you can't wake up in the morning
'Cause your bed lies vacant at night
If you're lost, hurt, tired or lonely
Can't control it try as you might
May you find that love that won't leave you
May you find it by the end of the day
You WON'T be lost, hurt, tired or lonely
Something beautiful will come your way

Some kind of beautiful

All your friends think you're satisfied
But they can't see your soul, no, no, no
Forgot the time feeling petrified
When they lived alone

If you can't wake up in the morning
'Cause your bed lies vacant at night
If you're lost, hurt, tired or lonely
Can't control it try as you might
May you find that love that won't leave you
May you find it by the end of the day

You WON'T be lost, hurt, tired or lonely
Something beautiful will come your way


Something Beautiful

Robbie Williams

Confidência do Itabirano



Sabe.

Todo mundo tem algo em si que acredita que a torna a pessoa mais idiota do seu mundo. Um maneirismo de sapato velho, um vício de gostar sabe-se-lá-porque ou um jeito de dormir que deixa o braço dormente. Enfim, algo do que reclamar em si que, por mais que os outros achem bonito, é a coisa mais horrível do mundo quem-dera-eu-não-fosse-assim. Uma amiga minha estes dias assumiu a sua, e com isso me fez pensar se não sou como ela. Eu estes dias também andei pensando na minha e concluí por fim que sou de uma ingenuidade incurável.

Nunca acreditei nisso de fazer anos. Aniversário para mim é o motivo do ano para dar uma grande festa em cima de todas as festas que são todos os dias porque a vida é boa pai. Sou o mais novo de todos meus irmãos mais novos, e já até me pensei caso de analista, síndrome de terra do nunca. Mas os anos foram passando (mentira!) e eu vi que gostava mesmo de video-game. Jogo deitado no divã, na sexta-feira que é dos outros. Não tenho carro de controle remoto porque até hoje não encontrei o que quero. Sempre acabo na sessão de livros infantis, tenho revistinha no banheiro, muito disso porque não acredito nas revistas semanais. Tenho uma espada (de verdade) e todos os episódios da Caverna do Dragão. Escuto Trem da Alegria no carro, com os vidros fechados quando chega no sinal, mas escuto! Eu consigo tirar minha sobrinha do sério, e falo com voz abobalhada quando encontro um toddler de rostinho bonito e que me manda um "Oi!" que ilumina meu dia. Sou padrinho bobão da menorzinha, choro só de pegar ela no colo. Enfim, esse pequeno mundo faz tanto sentido para mim que às vezes me pergunto se é tão ruim assim acreditar nas pessoas como quem acredita que doce de leite é a melhor coisa do mundo depois da bicicleta do natal passado.

Eu juro que tentei me curar: ouvi gente, li gente, quebrei a cara, fui enganado e até fiquei triste! Passei por maus bocados nos lábios de mentirinha de gente tão coitadinha... todavia fui tolo também, cometi gafes sentimentais, danifiquei corações, e tem até quem diga que sou a causa dos males do mundo. Rodei na mão das mais variadas especialistas, todas elas com algo para me dizer que era eterno-enquanto-duro: ah! tive meus momentos de beber desse xarope de alcova, que só amarga no final. Acreditei no copo americano e nas doses homeopáticas de horror moderno. De tudo tentei o pouco, e ao final, descobri-me inexperiente ainda, crédulo ainda, bobo ainda dessa vontade de fazer gol de bicicleta, porque-é-o-mais-bonito!

Vai ver é algo patológico mesmo. Vai ver o certo é aceitar as coisas como elas são e não fazer nada para mudar. Vai ver. Eu prefiro fazer. E diferente, que é a minha praia.

É bom tocar o fundo de lama de alguns lugares da vida e não gostar do fedor. É bom dormir se sentindo sujo e acordar no outro dia com sede do tamanho do chuveiro. Delícia isso de paulatinamente ir aceitando os binômios quem-tu-és-de-fato: Caravaggio claro-escuro, doce-salgado, cabeça-coração. Em suma, como é gostoso ser enganado e não perder a fé na raça de humanos, gente como tu rapaz. De esquecer para lembrar bem, de entender, de aceitar, de amar cada curva do caminho com esse ardor de pneu novo.

Fui e estou voltando. Algumas paradas no caminho ainda, que a conversa de caminhoneiro é mais difícil de se desaprender. Entretanto, faço esse trajeto com o boné para trás, camisa da OP, walkman da sony e fitinha. Antes de chegar em casa, paro no campão, peço um kichute, primeira próxima é minha quero-nem-saber-cheguei-antes-de-ti-tira-o-time-aê, e te digo, amigo e amiga, só saio quando fizer meu gol, aquele gol... tu sabes!

Se crescer é perder a fé, se liga nos trinta, dos outros, não no meu: eu ainda tenho muito ollie para dar nesta vida. E vai ser assim, até que a morte me repare, ou emende, ou ria junto comigo. Isso não quer dizer ser bobo: tenho uma troca para fazer, mais os 5 exércitos da europa, noves fora Londres ou o que seja, coloco tudo ali... 3 contra 1 monte de gente que me acha só, esses sim tolinhos. Tenho hotel na Av. de Sempre, se parar aqui, paga nada não que já estou rico de tanta coisa boa que as coisas ruins me deram no Jogo da Vida. Sou agradecido até a você que rolou os dados vermelhos, mesmo quando era o meu turno.

Se bom é aprender, desaprender em muitos momentos é melhor ainda. Há essa ânsia de ser grande, mas é mais bonito ainda ser pequeno. O tempo nos educa no gosto pelo simples. Se teu passatempo é aparecer, pizza ainda é minha comida favorita. Mais pipoca, menos prozac. Desista de esperar enormes feitos de mim, porque já fiz o maior de todos: fui o primeiro da galera a zerar Yer Yar Kung Fu. Renegade eu dava mais de 5 voltas cumpadi, tá pensando o que? Eu jogo com o Ryu, não com o Ken, e dou roriugueti triplo mesmo assim.

Acima disso tudo, acredito em vocês. No plural mesmo e sem medo de vacilo: é errando que a gente vai se aprendendo. Pode segurar o controle, sem receios, que é tua vez.

X, Y, A, B, Chêro!

May-be Borderline

Eu gostaria que o atlântico fosse uma mentira inventada. Eu gostaria que meu pensamento fosse um pombo, e minha imaginação, toda linguagem do mundo. Gostaria também de nunca ter aprendido a ler: palavra, ofensa grave! A caneta neste momento é para mim como a espada do covarde, segurada pela mão invisível de Iago. A tinta é a lágrima que escorre do papel, lamento da humanidade inteira: o carvalho morre triturado na prensa, que podia bem verdade, espremer fora todo o sentimento que enfeita entre-linha.

Sim, nada mais difícil do que cruzar a fronteira do dito. De ficar ali suspenso olhando para aquele universo do não catalogado e pensar: (...). De levar a mão ao peito, buscar o bloco de notas, o teclado-atalho, o lápis, o livro, o dicionário... e só encontrar páginas em branco. De lembrar dos dias que cruzou os portões das academias, dos debates e embates em busca da tão sonhada glória de trabalho final. Do que disse e ouviu, do riso, do escárnio, do meio-aplauso para o meio-homem e dos tantos outros bezerros de ouro, ícones da vaidade de giz. Enfim, de apesar de se sentir agradecido, ver que nada disso é capaz de te informar um pouco da encrenca enorme que te vai no peito. Ao som de uma voz antiga, ao toque de uma mão conhecida, voltamos ao totemismo de nós mesmos: o que não é clava, deve ser coração.

Não estou com isso desmerecendo a boa educação, estou apenas lembrando que um beijo é tão conceitual quanto uma pedra. Um sorriso, anotomicamente falando, é o espreguiçar da boca triste. O suor é tanto um pedido de licença do salgado em nós como um convite para namorar comigo. Um cheiro é uma verdade que fugiu para o nariz de quem nunca esquece. O teu gosto é cápitulo inteiro, salpicado de versículos arranhados e mordidas no cangote. Em suma: não desmereço a carteira de identidade e o CPF, mas eu ando com meu mapa astral no bolso, só por precaução.

Não quero fazer o discurso dos desiludidos, mas por favor, quando o assunto é o que vem lá do fundinho, não vale colar, nem repetir: só sentir. Professor senta no mesmo lugar que aluno e a lousa escreve sozinha absurdidades que ninguém copia. Ao final do semestre, prova, para responder em casa, em duplas:


Gentilmente e à meia-luz, deleite-se nas questões que se seguem:

1) Segundo os autores tratados nesta unidade, defina "Ela" e "Ele", e a importância de ambos para o universo que é vocês dois;
2) Situe, de acordo com a escola francesa, o conceito de coeur e e suas implicações para a sociedade moderna do quarto de casal da casa;
3) Experimente o sabor da alteridade, e defina o gosto de "língua".
4) Marque (N)ada, ou (S)eja o que for, mas viva, meu filho(a)!


Pois, dizer dessas coisas é visto como a nova rebeldia, mesmo que você adore sapatos de couro italiano. Fazer o que? Não as dizer! Sim! Contra toda essa política de nota-de-pé-de-página nada melhor que o silêncio de quem cruzou a fronteira: a delícia de ser ilegal! Pode ser confuso no começo "não ter o que dizer", todavia acredito que com o tempo nos acostumamos a pensar pouco, até que o muro branco se pinta de rosa e o Nirvana vira algo como (insira aqui sua imagem de paraíso).

Se o atlântico fosse uma mentira inventada talvez aprendessemos a ter saudade da pangéia. Não que não houvesse gosto pelo diferente, mas é bom estar pertinho, não é? Nada contra a poesia também e todo esse amontoado de pergaminho, mas oralidade é uma palavra evocativa... e danada! Já o pensamento, bem... esse é sempre-pássaro, com a imaginação como esqueleto e beijo amarrado na perna. Voa longe, cruza oceando de mentirinha e bate lá no coração de quem fica para além do bojador. Para quem vai par'aquém, fica já a dor, antecipada, da saudade do gostinho de mô bem!

Disse tudo isso para não dizer nada. O teu silêncio é o testemunho do teu carinho. Se for para abrir a boca, tudo bem, mas que não seja para me dizer talvez, mas para gritar um sim! Senão, fico com o nada dito, de tudo pensado, e sempre consumado, registrado no cartório do lençol e das manchas na almofada, provas científicas de nós dois.

De resto, quem diz fronteira, diz praia, sol e mar. Vamos?

Tu, sonrisa.



Quítame el pan si quieres, quítame el aire,
pero no me quites tu risa.

No me quites la rosa, la lanza que desgranas,
el agua que de pronto estalla en tu alegría,
la repentina ola de planta que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo con los ojos cansados
a veces de haber visto la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa sube al cielo buscándome
y abre para mí todas las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle, ríe, porque tu risa
será para mis manos como una espada fresca.
Junto al mar en otoño, tu risa debe alzar
su cascada de espuma y en primavera, amor,
quiero tu risa como la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa de mi patria sonora.

Ríete de la noche, del día, de la luna,
ríete de las calles torcidas de la isla,
ríete de este torpe muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van, cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire, la luz, la primavera,
pero tu risa nunca porque me moriría.

Diário de Notícias



Sabe
Tem quem goste com arroubos
E quem goste de falar do que sente
E que encante toda a gente
Com laudas de coisa sentida

De mim, eu te digo amiga,
Sou óbvio como o jornaleiro

Explico
Sinto tudo isso como uma notícia
Que me deixaram ao pé da porta
Junto à garrafa de leite e bom dia
Que a vizinha me deu

Penso em tudo isso, e só vejo lógica
De primeira página: EXTRA!
Fico tão atordoado que nem consigo
Lembrar de ler o necrológio:

Meu cérebro agora virou uma tipografia
Que só imprime panfletos rosas
Em letras garrafais

Folhetim de coisas miúdas
Que amontoadas viram grande acontecimento
É como defino este momento
Na falta de melhor metáfora

Digo isso, mas digo pedindo licença
Modestamente
Já que és tu a senhora
De todas as figuras de linguagem

E já que estamos falando de ti, comece a se explicar!
Sim, diga o que é isto aqui escrito na página 3
E na página 2, e na página 1, porque
Em lugar algum vi coisa
Tão bem escrita:

A sutileza da sátira parisiense
Se misturando com a filosofia alemã de fin de siécle
E uma pitada de paixão silenciosa da andalucía

Em suma
Apesar do susto de início
Gostaria de ordenar minha assinatura
Deste periódico, e nas coisas ditas
Ler tantas outras ainda tímidas

Porém, antes disso, tenho lá uma exigência
Que tu todos os dias, apenas me tragas
O caderno de cultura, pois não é loucura
Apreciar um bom espetáculo

Afinal, hoje mesmo fiquei sabendo
Que no Opera vai se apresentar uma bailarina
Ela sozinha, porque ela só é toda uma companhia

O espetáculo não tem nome ainda
Mas me segredou amigo, que o Ato I
Chama-se "Os Bons Sentimentos"
No ensaio, era ela em pé sobre cadáveres
Representando o passado de alguém
Que com certeza
Chorava de alegria na platéia

Vês que não tenho lá o gosto tão fino
Tudo isso eu li no Diário de Notícias
Que por sinal, na edição de domingo
Dize-nos como degustar um bom vinho:

Sabias que a última coisa que fazemos
É levá-lo à boca?

Enfim
O que seria do homem sem a cultura?
Não sei de floreios (minto, verdade!)
Todavia continuo nada misterioso

Afinal, tenho esse gosto matinal
De levantar cedo todos os dias
E esperar, junto com o raiar do dia
O noticiário de ti, que chega até mim
Na forma de coração-jornal

Agora licença
Tenho uma leitura a fazer...

-Bom dia! A senhora vai bem também?

Amar, verbo TRANSGRESSOR!


Eu tenho vários dicionários mas nenhum com palavras competentes o suficientes para me definir essa revolta toda que carrego em veias no peito. Digo peito mesmo, porque quem dele fala, fala do leite que tomou, mal ou bem agradecido. Fala também dessas tripas todas que se enroscam entre ossos, desse agitar compassado, do sangue que circula e de toda essa pequena-gente que me mora e que nem sei o nome: amigos pequenos, senhores da minha hora final. Enfim, toda a vez que olho para a minha prateleira só encontro preguiça de quem não viveu metade do que escreveu. Não que eu te desmereça, meu genial amigo defunto, mas convenhamos, que preguiça! Nietzsche era o pequeno-Rilke, e quem adoram mais?

Por isso hoje vou cuspir na tua cara, e a minha saliva carrega o gosto do meu beijo. O lábio que escorre tudo isso é a minha carne, vermelha, como bandeira. Meu dente é branco-amarelado e tem remendo, de tanto doce que comi. A língua é o fim da frase, que nasce na garganta, túnel do grito, ela também vermelha. Tudo dentro de mim é dessa cor: basta me virar do avesso. E é justamente disso que estamos falando, do contrário de tudo. Do inverso do verso, da poesia que se mete a ser prosa, sem medo. Da bandeira hasteada, da passeata, da placa de PARE (ou não). Do sinal, de outubro de 17, do cartão de junho. Estamos falando da nova América Latina, américa minha e tua, de índios, negros e nenhum branco, que branco nunca existiu. Enfim, estou falando do vermelho, e também do coração.

Como te disse, palavras são preguiçosas. Mas quando cantamos o hino, a mão vai onde? E quando vem a dor, onde ela vai? E quando não há mais dor, que é o amor... e aí? A geografia da nossa anatomia... seria capricho ou piada que a sede do sangue (vermelho) seja no lado esquerdo do peito, sede da primeira sede? A esquerda é sinistra, e eu adoro mistério! A direita faz tudo certo, mas eu sempre tive a letra feia. Alguma coisa está errada então, mas, na dúvida, troquei de lápis... e de mão!

Estou sim chateado, chateado com o meio-termo. Conciliar é bonito na vara de família, mas seria bom nem precisar ir lá, não é mesmo? E como isso? Radicalizando! Sendo ortodoxo até o miolo do pão! E como isso? Ah, eu só sei um caminho: pela esquerda!

Sim, abra os braços, Miguel-ângelo. Abrace o mundo, que é você também, e não tenha vergonha dos braços curtos de início ou da timidez de quem não sabe o que é afeto. Abrace! Depois beije, mas beije com a vontade de respiração boca-a-boca, porque não se iluda: há muito quase-cadáver por aí, se há! Gente que está morrendo porque está na beira-de-qualquer-caminho, e não na estrada. Gente que deixaram à margem, gente que deixaram, e continuam a deixar. Gente que se deixou porque achou mais fácil ficar. Enfim, abra os braços Miguel e seja anjo daquele pouquinho de gente que é o teu derredor, e te digo, já fizeste tudo. Mas tudo mesmo.

Esse é o caminho, Miguel, esse é o caminho. Essa é a nova-esquerda que andam procurando lá em Sorbonne. Michel Löwy, Jacob Gorender, Frei Betto e a escola paulista. José Paulo Netto, Emir Sader, a UERJ, a Unicamp, enfim. Todos eles são nomes louváveis, mas não se engane: conservadores! Todos eles! Direita, dessa direita ainda presa a repetir as fórmulas e fumar os restos do charuto do Fidel. A nova-esquerda é a única-via, porque é declaradamente expressa: vai dar direto no coração. Sim, porque nascemos à esquerda. Nascemos sinistros, tortos, e desajeitados, com cara de joelho. Mas com o tempo, as coisas foram se esquerdeando em nós, fomos ficando cada vez mais radicais e intransigentes com tudo que cheirasse a... bem, resto de charuto!

O caminho da esquerda é o caminho de quem adota viver pelo que é precioso na vida: AMAR! Sim, antes de ser verbo intransitivo, o amor é transgressor. Ele não respeita a barreira da civilidade empoada e vai bater lá na casa de quem dorme no chão. Ele não anda de carro importado ou nacional, ele voa, que é filho de pássaro grande. Não respeita gramática: TE amo é como começa tudo, obliquamente. O AMOR, em maiúsculas, é o novo-conceito da velha-escola de sempre daqueles que fizeram a escolha de VIVER. Nem Hegel, nem Marx, nem ninguém: tudo metade! Amar: o novo inteiro.

É um silogismo fácil de entender: o coração é inquilino do lado esquerdo do peito, logo, o amor veste vermelho. Quem ama abraça e quem dá o braço dá o esquerdo. Quem levanta o pulso, canta um hino diferente, e grita na rua uma canção nova, que fala de coisas antigas. Os verdadeiros revolucionários de ontem e hoje são todos bardos e, altos brados, expuseram sem medo a morte do peito vazio, lado direito. Transgressores, riram da faca afiada e beijaram a mão no martelo de suas sentenças.

Revolução doce, revolução do beijo. Revolução do carinho, revolução do eu-me-importo-sempre. Revolução da boca, das tripas sinceras e do tudo preenchido. Todos os que se colocam sob essa nova bandeira, vermelha ainda, colocam-se não sob o peso do sangue dos que pensam diferente, mas na tutela da democracia do coração. O vermelho não é a cor daquilo que se derrama, mas do que circula dentro de todos nós. Cor velha do novo-mundo, bandeira dos novos-radicais e flâmula dos cavaleiros da nova-ortodoxia. Mundo-um, inteiro. Partido Político dos de Coração. Anti-Igreja Universal dos Despossuídos da Necessidade de Religiões no Plural.

Chega a aurora: vermelha. Chega, porque teimaremos até o fim. Amaremos em todas as conjugações possíveis. Revolucionários ATÉ a última hora, não descansaremos. Invisíveis ou visíveis, o mundo nos pertence.

Viva o amor, o amor não morreu!

Lua em Capricórnio


De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
E de que modo sutil
Me derramou na camisa
Todas as flores de abril

Quem lhe disse que eu era
Riso sempre e nunca pranto?
Como se fosse a primavera
Não sou tanto
No entanto, que espiritual
Você me dar uma rosa
De seu rosal principal

De que calada maneira
Você chega assim sorrindo
Como se fosse a primavera
Eu morrendo
Eu morrendo

Eros? Psique!


(Uma das partes do ministério do virar gente grande é a pasta do entender os clichês psicológicos que subjazem nessa baguncinha que se convencionou chamar eu. Um livro que lês, um filme que vês ou o amigo[a] que chora as mágoas do [des]amor perdido passam a ser para ti uma fonte inesgotável de reflexões: padeço eu, também?)

(Começa assim o labor do susto de si, que depois evolui para uma abordagem mais complexa de si mesmo. As associações ficam mais interessantes, e os bois ganham não só nome, mas lugar no espaço-tempo de tua vida. Pasma-te descobrir que aquela tua mania odiosa, que tanto te faz sentir-te mal e incompleto[a], na verdade está ligada ao brinquedo que teu irmão quebrou, ou ao peito que tua mãe não te ofereceu. É estranho ver que aquilo que acabou, acabou antes mesmo de começar, porque esse fim vivia em ti, em forma de pequenos detonadores que tu mesmo fazia questão de acionar todos os dias para te punir por aquela nota que tiraste na 3a série, ou por aquele campeonato de futebol que tu perdeste o penalti aos 45 do segundo tempo!)

(É impressionante o quanto possuímos destes pequeninos e corrosivos seres a habitar o terreno fértil de nossa [in]consciência. Ninguém gosta de problemas, todos se querem ver livres deles. Mas, os remédios nem sempre estão de acordo com o mal em si. Do terreiro à tarja-preta, da conversa ao laissez-faire do já passou, existem inúmeras nuances que exigem aproximações gradativas e seletas. Na verdade, o que quero dizer é que brasileiro tem mania de achar que tudo se resolve ou com dinheiro, ou com reza. Tá certo que Jung foi um puto, Freud mais ainda. Mas tudo que eles ensinaram ainda é válido: se foges da auto-análise, da carne crua exposta de tua psique [palavra grega, lembro], condenas-te livremente a vestir a toga de Sísifo, e ao ofício de loop daquilo que te prometeste nunca mais viver. Conversa de ágora, tua vida fica resumida assim:)


COMEÇO DO ATO

Cena: Tu és teus maiores temores.

Herói: "Tenho medo"
Parcas (rindo): ...
Coro: "Eis que a Hélade hoje chora"
Herói (ainda com medo): Quem canta?
Psique: "Não me chamo sereia, falo apenas".
Coro (tampando os ouvidos e apontando o céu): "Caprichos do Olimpo"
Herói (mostrando um saco dinheiro às Parcas): "Comprem a melhor solução que encontrarem"
Parcas (saindo): ...
Psique: "Continuarei aqui"

FIM DO ATO
Caso teimosia => LOOP mode = [ON]


(Meu amigo, meu herói, quer o sentido de coragem? Enfrentar-se. O de vitória? Vencer-se. O de superação? Acordar melhor do que ontem. Ninguém perde o que não tem, não é isso que está escrito na porta do banheiro do petit-bar que tua enorme dor costuma ir nadar? Mas e quanto ao teu sacrifício aos deuses do melhor em si? Ou preferes gastar tuas dracmas nas portas do templo do todo-poderoso-Lamuriar-do-que-deixou-de-ser? Escolha tua. Certo é que Psique não dorme, e quanto tu pensas que ela te esqueceu, eis que ela aparece no meio do teu sonho, em que te vês abraçado a serpentes e outras criaturas que sugam teu sangue, fino. Acordas suado, e teu grito no escuro é o testemunho do que vens fazendo de tua obrigação de encarar o espelho sem aço da necessidade em se ser melhor)

(Nós não conhecemos outro recurso melhor para exorcizar fantasmas do que mudar a ração deles: só lobos caem em armadilhas para lobos. Sejamos repasto para fomes outras, alegres e saudáveis, que nos caem em bocadas amigas, anseios de coração. Mas antes do lábio, o olho: instrospectivo, penetrante, Ísis-deusa-mulher em nós, curando e ensinando. Só assim nos livramos dos clichês, que em bom português quer dizer "mania de carangueijo". Desculpe a mãe, o pai e o irmão. Desculpe o pé torto, que chutou a bola para fora mas te carregou até aqui. Por fim, desculpe tudo que passou pelo bem do tudo que virá. Sem [auto]perdão, meu querido filho de Éolo, a montanha é mais alta ainda)

(Com isso, Psique torna-se eterna amiga. Noite vira tempo de dormir bem, tranquilo e abraçado com a certeza do melhor presente)

Vês o palácio dele; o rei está lá dentro;
à tua frente está sua mulher e mãe
dos filhos dele. Eis a resposta, forasteiro.

Alembojador (Depois do Mar)



Cuidas, Ínvio, que cumpres, apertando
Teus infecundos, trabalhosos dias
Em feixes de hirta lenha,
Sem ilusão a vida

Cuida-te,

Segue o teu destino,
Rega as tua plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias

A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que te aqueça,
Nem sofrem peso aos ombros
As sombras que seremos


sendo mais.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nos somos sempre
Iguais a nós-próprios

Para folgar não folgas; e, se legas,
Antes legues o exemplo, que riquezas,
De como a vida basta
Curta, nem também dura

Sê

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Pouco usamos do pouco que mal temos.
A obra cansa, o outro não é nosso.
De nós a mesma fama
Ri-se, que a não veremos.

a pergunta,

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.


Quando, acabados pelas Parcas, formos,

Vultos solenes, de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal -


e nunca,

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

O barco escuro no soturno rio,
E os novos abraços da frieza stígia
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.

o jamais.

Gostar, ofício a leste de Gibraltar.


(Por muito tempo, meu amigo e minha amiga, acreditamos que isso de gostar era o antônimo de caravela: o mar forte que quebra na quilha, a mão insegura, velas recolhidas em embarcação ao sabor dos elementos. Sim, amar era tudo ou nada depois do equador. Achávamos bonito as imagens do passado e do presente que corroboravam essa ânsia do incerto e da loucura, e confudíamos sentimento com romantismo barato de folhetim parisiense, esquecidos que Balzac não era aventura de um dia, era toda uma comédia educativa dos erros que eu e você tanto nos acostumamos a dormir de conchinha)

(O tempo passa, a gente passa e vê que atlanticamente nada fica. Nada fica do revolto de tuas emoções passadas: delta em ti, escoadouro de ilusões. Se tens essa sorte maquiavélica, cultivas do tudo dito alguma virtude e escolhes flores independentes dos espinhos. Senão, te afogas no Nilo e crocodilo, que é bicho, te come. Teus dias acabam por se tornar assim a dependência da boa vontade de alguma Ísis que vá passar a limpo o ventre alheio e recolher teus pedaços)

(Mas para nossa fortuna, chega aquele dia que a humildade da madeira gasta faz voz de porto: você se recolhe um tempo de toda intrepidez. Alguns confudem o silêncio com a amargura e o distanciamento do pior como solidão. Outros todavia sentem o imperativo do oráculo de Delfos: descalços vão sentar à beira do mar. Depois de alguns pôr-do-sol, a vista vai se acostumando lentamente ao luzo fusco do pior que dejà passou. A vontade de terra-nova sempre esteve contigo, entretanto, só com a mente asserenada é que se consegue ler as entrelinhas estrelares que te guiam entre um trópico e outro)

(E aí, meu parceiro e minha parceira, é que tua embarcação toma o rumo do leste, e te vês na eminência de querer descobrir o novo-no-velho continente. Que o mundo é redondo não duvidas, mas quem gira demais fica tonto. Teus sabores já os tem, de exótico já basta o que não basta em ti. Camões foi o poeta do declínio, dessa Portugal que se lançava a braços do Restelo ,acreditando que ia atravessar o mundo a nado: ninguém escutou a voz rouca do velho. Por pensar assim, chamam-te covarde, leitor de Kant. Acreditam-te fraco, anti-Acab. E nas colinas de Lisboa costumam caçoar de ti, tu e toda essa tua sede de Mediterrâneo)

(Mas eu não te condeno. Tenho cá para mim que gostar é sinônimo de velejar. É a viagem que se faz do ponto A ao ponto B com Descartes amarrado no porão. Viver é preciso sim, quem acredita no contrário é essa gente da Baixa-Chiado quem tem a vida ganha no navegar dos outros.)

(Por isso, aprovo os planos cartográficos de coração-sereno. Partes com o selo do Rei tu que vais bem-ali em Trípoli, buscar a provisão de sempre. Tu que beijas os teus quando partes, pequenos que dormem quietos à noite e nunca perguntam quando tu voltas porque assistem o sono tranqüilo de tua senhora. Enfim, serve mais à pátria-do-peito você que cruza o mar velho de velas abertas do que aquele que é só promessa de meridiano: sinceramente, aventureiros Portugal sempre teve à borla!)

(Gostar é ofício dos calmos. Se tens o peito opresso, a vista turva, e as mentiras todas contadas, então larga o leme e te recolhe ao serviço de escritório durante um tempo: contabiliza tuas empreitadas, coloca em panos tuas feitorias. Só assim vais ter espaço para novos papéis. E aí, vais ver que toda essa ânsia alentejana era apenas impulso teu à pirataria. Calma, meu amigo e minha amiga, é o que a vida vai vos pedir, e apenas isso, porque sem calma ninguém vai entender vossa caligrafia)

(Sigamos na confiança de vencer os desafios por etapas, e que ninguém se gabe por saber onde fica Gibraltar: conversa de peixe é rir dos ossos de quem achou que era bom demais para remar. Trípoli é bem ali, bem o sei. Agora sem paciência ninguém cruza o cabo, que bem lembro, é das tormentas. Experiência ainda vale algo, e quando o assunto é água-funda, todo cuidado é pouco)

(Navergar é incerto, posto que é engenho. Todavia, chegar é preciso)